AVATAR

    Em dias diferentes da semana que passou, assisti ao filme Avatar, do James Cameron, e depois, li a coluna  "Morrer de prazer", do Ruy Castro, na Folha de São Paulo. O Ruy contou que o caderno "Mais!" do jornal paulista, pediu aos entendidos que citassem seqüências marcantes do cinema. O resultado, sem surpresas, apontou as inevitáveis: – a da escadaria, em "O Encouraçado Potemkin" e a da morte de Annie Girardot, em "Rocco e Seus Irmãos", e outras menos lembradas, todas de filmes impopulares, do gosto dos cinéfilos. O cronista disse que foi um pouco discrepante, ao escolher uma seqüência de "O Homem do Sputnik", uma chanchada nacional com Oscarito, gênero extinto há 50 anos. Mas, reclamou que, talvez pela obviedade, ninguém se lembrou  de Gene Kelly cantando na chuva entre outras seqüências que citou. Na verdade, sua escolha bate de frente com o gosto dos entendidos em cinema que só enxergam grandes cenas em filmes que consideram cults e não as admitem nas películas consagradas pelo "povão". Se me pedissem para citar as três melhores seqüências cinematográficas, eu ficaria com aquela em que a Vivian Leigh (Scarlet O Hara) jura que nunca mais irá passar fome em "E o Vento Levou"; a da Julie Andrews (Maria) cantando "The Sound of Music" no alto de uma montanha, em "A Noviça Rebelde"; e o tango dançado por Al Pacino (Frank Slane), no papel de um cego, em "Perfume de Mulher", num fino restaurante. O último filme, não sei, mas os dois primeiros provocam enjôos na intelectualidade cinematográfica. Por ser um gênero de filmes que não aprecio, fui ver, atendendo ao pedido da minha esposa, o Avatar.  Assisti os primeiros dez minutos do jeito "não vi e não gostei", mas, a partir daí, não consegui tirar mais os olhos da tela. O filme é fantástico e segundo a Veja, recria um mundo possível pelas leis naturais. Os cenários deslumbrantes, onde diversas espécies de plantas brilham no escuro, enormes blocos de rocha, cobertos de vegetação, flutuam no céu; e as cenas da "árvore da vida", são simplesmente impressionantes. Eu sei que foram utilizados na filmagem tecnologia de ponta, computadores de última geração e programas ultramodernos. Mas, de nada adianta toda essa traquitana se não houvesse do outro lado, um, ou vários cérebros privilegiadíssimos, imaginando como seria o mundo em Pandora, uma lua do planeta Polyphemus, no sistema Alfa Centauro, cerca de 4,4 anos-luz da Terra. Batendo todos os recordes, o filme é candidatíssimo a ser execrado pelos entendidos. O Veríssimo, que achou o filme sensacional, citou em sua coluna duas ironias flagradas em Avatar pelo crítico de cinema da revista The New Yorker: "o filme é, ao mesmo tempo, contra a tecnologia e o mais empolgante exemplo de tecnologia avançada que já se viu no cinema." Já o Ruy Castro terminou seu texto dizendo que "hoje, com o DVD, é possível assistir as seqüências eleitas pelo caderno "Mais!"e a muitas outras numa única sessão. Corre-se apenas o risco de "morrer de prazer". Pois eu, aqui do meu humilde canto, acho que dei sorte em não ter assistido Avatar em 3D. Ficaria paralisado, em êxtase, antes de o filme chegar ao meio. O senão fica por conta do aumento do passivo com a minha esposa.