AVENIDA CENTRAL

    Um cronista do “Avenida Central”, jornal distribuído no centro do Rio que se intitula o guia da cultura e do lazer, espantou-se ao descobrir que os camelôs andam vendendo lupas. Bom, ou ele só anda de carro ou não “enfrenta” a “cidade” desde que a Rua da Carioca era denominada Rua do Piolho. Se estranhasse que existe gente comprando óculos em bancas de camelôs, sem receita, sem segurança e sem qualidade eu até entenderia. Mas, lupas?      Antes de escarafunchar a questão, não resisto em contar o “affair” acontecido numa ”ótica” de calçada, narrada e assistida pelo Da Matta e protagonizado por um “sauro baceniano” e por um ambulante apelidado de “Passarinho”, personagens famosos por suas rabugices e teimosias. O “sauro”, antigo conhecido do camelô, aproximou-se do “mostruário” montado sobre um caixote e passou a examinar um exemplar de óculos de grau, de lentes transparentes.”Passarinho”, sem ser perguntado, informou: – “São óculos para leitura!”.O “sauro” ranzinza não perdeu a viagem e emendou: – Pô, “Passarinho”! Todos os óculos deste tipo são para leitura! O que eu quero saber é se são para perto!?Ferido no orgulho, “Passarinho”, firmou o pé: – “São óculos de leitura!”.O “sauro”: – “Passarinho, você é passarinho, não é burro! São para perto ou não?”.”Passarinho”: – “Os óculos são para leitura!”.O “sauro”, “pê” da vida, apoiou os óculos no rosto, mirou uma placa do outro lado da rua e disparou: – “Se são para leitura, porque não estou enxergando o que está escrito lá?”.”Passarinho”, mais firme ainda: “Os óculos são para leitura!”. Hábil conciliador, Da Matta apresentou uma proposta: “Passarinho” prestaria as devidas informações e o “sauro” compraria os óculos. Uma dúzia de cervejas depois da assinatura do “acordo de paz”, Passarinho “voltou à carga: -” Nem todos os óculos são para leitura!””E o “sauro” – “Todos os óculos de lentes transparentes são para leitura!” “Passarinho” – “Nem todos os óculos são para leitura!” –  Aí, o Da Mattinha jogou à toalha.      Voltando ao cronista, confesso que estou com vontade de convidá-lo para que, na hora do almoço, façamos um périplo pelo Centro (aprendeu agora o que o termo significa, Veríssimo?). De início, lhe daria a opção entre irmos a pé ou embarcarmos em motos-táxi. Caso opte em andar, poderei oferecer-lhe a oportunidade de comprar “na promoção”, um “Rolex”, – na “moita” – com uma chance em mil de ser legítimo, ao lado da igreja de N.S. do Rosário, na Uruguaiana.Na Presidente Vargas mostrar-lhe-ia as “chamadas” para os endereços onde podem ser vendidos com deságio os diversos vales sociais. Se ele quiser ir até a arapuca, também poderá arriscar a sorte na “centena premiada”. O sorteio é realizado na hora. Na Miguel Couto, cruzaremos por aquela ”peça” que, sentado engravatado atrás de uma mesa com guarda-sol, presta “consultorias” sobre planos de saúde, sem ser credenciado de nenhum.  Na Alfândega receberemos ofertas de sexo a DEZ REAL e, no camelódromo, por curiosidade, avaliaremos se cortinas dos cubículos para “saliência” oferecem privacidade, e aonde seremos informados que, depois das sete, os preços baixam até a R$1,99! Desconhecendo a “quantas anda” a virilidade do meu futuro companheiro, evitarei que seja abordado pelos antigos vendedores de “pomada japonesa” que, atualizados, posicionam-se do lado do possível comprador e direto no ouvido, oferecem o “diamante azul”.  Se for cinéfilo, posso levá-lo até a Rio Branco, altura da Carioca, para adquirir qualquer dos filmes que estiver sendo exibido nos cinemas da cidade, isso porque, agora, os “comerciantes” instalaram televisores para mostrar a qualidade dos Dvds. Tem até pipoqueiro perto.  Por ali também poderá adquirir um controle-remoto “universal”, cuja eficácia do “produto” é demonstrada no ato pelos camelôs, que, da calçada, para desespero dos lojistas, acionam as televisões dentro das lojas de eletrodomésticos. No final do passeio se o cronista quiser documentar o passeio, posso levá-lo para tirar um retrato para a posteridade num “lambe-lambe” no Largo da Carioca. A máquina fotográfica fica acomodada em cima daqueles tripés e para tirar a foto, o retratista esconde a cabeça debaixo de um pano escuro e a mão livre segura o flash que ao disparar, solta uma fumaceira danada. Se questionar que retratos desse tipo, demoram a serem revelados, terei a resposta na ponta da língua: -Que nada, “péga” na hora! Aquilo tudo é encenação.  A câmera é digital!