BANCA DE JORNAL

               Já contei por aqui que quando estava na ativa o meu sonho de consumo, ao aposentar, era montar uma banca de jornal que, entre outros benefícios, me pouparia de ser tachado de inativo. Mas, para atender à pretensão, estabeleci um regulamento.: o meu empreendimento teria que ficar sediado na Zona Sul do Rio. Funcionaria só pelas manhãs e não abriria às segundas-feiras e feriados.                         A localização teria que ser na orla, com vista panorâmica, de modo que, se olhasse para frente veria o mar, se olhasse para trás, daria de cara com as montanhas.De preferência, estaria próxima de um restaurante, onde, nas horas vagas, tomaria um chope enquanto admiraria o desfile de lindas mulheres em trajes sumaríssimos que enobrecem esses bairros.           Teria que ser uma dessas bancas bem modernas e enormes, que mais parecem um mini shopping e dá até para passear por dentro. Além disso, ofereceria algumas outras facilidades como ar-refrigerado, telefone, televisão, rádio e internet banda larga.         Como o público alvo seria os aposentados, “acariciaria” o segmento com uma mini confeitaria contendo sorvetes, doces, balas e salgadinhos, ou seja, as guloseimas que não podem faltar para todo aposentado que possui glicose e pressão alta acima do tolerável.             Após estampar os exemplares dos jornais do dia nas laterais da banca, exerceria uma de minhas manias que é a de me misturar naquela “rodinha” que se forma em frente a eles para tirar um “leite” de suas manchetes, sem jamais comprá-los, e ficar curtindo as soluções que surgem para qualquer problema. Depois, no interior da banca, mediaria os debates sobre os assuntos do dia com os aposentados, já que eles, pela vivência, julgam entender de tudo.             Contudo, ao ler a coluna do Arnaldo Bloch, no Globo, conclui que preciso promover uma pequena mudança de rumo no meu sonho de consumo. O colunista disse que procurou, mas que não encontrou os jornais pendurados nas laterais das bancas do Leblon estampando suas  manchetes. Só encontrou publicidade de revistas ou de produtos alternativos à informação. Os jornais estavam escondidos sob pesos, longe dos olhos, do tato, do toque. Ele não sabia  se o fenômeno já havia chegado a Ipanema.           Como minha banca venderia de tudo, veria a possibilidade de abrir uma seção para medicamentos contra os males mais comuns. Isso permitiria que eu conservasse intacto o meu regulamento e manter o público alvo. Nas laterais, no lugar dos jornais, penduraria os cartazes sobre os diversos remédios, seus benefícios e efeitos. A única modificação seria a de aumentar o tempo do debate sobre doenças, tema comum em toda conversa de aposentados. A única coisa que falta decidir é a maneira de como lidar com uma atividade que certamente surgirá: o “mercado negro" das bulas e receitas de remédio.

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