O CORREDOR

    Com ironia, o jornalista esportivo Milton Neves contou na rádio BandNews que havia realizado uma caminhada na praia do Guarujá. Para comprovar a sua boa forma física, apertou o passo e ultrapassou o Wagner Montes que também se exercitava no local.Para quem não sabe, Wagner Montes é um antigo jurado do Silvio Santos, que faz um programa de notícias policiais no Rio, na hora do almoço. Nas horas vagas é deputado estadual. Anos atrás sofreu um acidente, teve uma perna amputada e, até hoje, usa uma daquelas antigas pernas mecânica que o faz andar manquitolando.Ao contrário do Milton Neves, João Ubaldo Ribeiro escreveu que uma das suas grandes frustrações foi a de nunca ter conseguido ultrapassar um sujeito que era manco, em suas caminhadas na praia. Não me lembro se um dos motivos para ele parar de fumar e de beber foi para tentar conseguir ultrapassar o sujeito ou se nem abandonando os vícios conseguiu ir à frente do cidadão.Durante bom tempo, caminhei na mesma hora na Rua Oliveira Belo, na Vila da Penha, no Rio. Quase sempre era ultrapassado por um sujeito que estava sempre de calça de moletom, camiseta regata e boné branco. Daí, cismei que toda vez o cara me ultrapassasse, apertaria o passo e lhe daria o troco. Só que ele sempre percebia a minha aproximação, apertava o passo e me deixava, literalmente, “comendo poeira”.Um dia ele não foi vestido com a calça de moletom. Estava de calção. Foi quando pude perceber que usava próteses nas duas pernas. Fiquei mais frustrado ainda. Afinal, eu não conseguia andar mais rápido do que um sujeito que, como se diz em Friburgo, era “cotó”.A imprensa andou destacando que o australiano Oscar Pistorius, que possui as duas pernas amputadas e se utiliza de prótese de fibra de carbono para correr, se classificou para disputar as semifinais da prova de 400 metros do Mundial de Atletismo de Daegu, na Coréia, concorrendo com corredores normais*.Mas, o cientista sul-africano Ross Tucker afirmou que o atleta deveria ter sido excluído da competição. Por causa das próteses, ele possui vantagem de 10 segundos sobre os adversários. Aliviado, pensei comigo: eis a explicação das minhas constantes derrotas para o cara do moletom.Pouco depois, ainda não satisfeito com as minhas derrotas, imaginei que a notícia que acabaria definitivamente com o meu trauma seria a de que “o corredor australiano Oscar Pistorius, famoso por usar próteses para correr, passou uma temporada incógnito no Brasil e treinava, diariamente, na Rua Oliveira Belo, na Vila da Penha, no Rio, sempre na mesma hora.

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