BANG-BANG

            O Veríssimo confessou de público que quando tinha nove anos e morava nos Estados Unidos, contribuiu para a vitória das forças aliadas contra as forças do eixo, matando japoneses e alemães aos milhares nos seus jogos de guerra solitários.        Quando tinha essa mesma idade, ia com meu pai assistir aos filmes de faroeste. Se o mocinho fosse o Rory Calhoum, então, éramos os primeiros da fila. Ele estabelecia outros parâmetros para colocar um bang-bang em alta: a bandidada tinha que ser perversa, os sioux e cherokees deveriam estar em pé-de-guerra, a película tinha que iniciar com uma briga no saloon onde alguém era atirado pela janela no momento em que o moço estivesse entrando e que a moça, fosse filha do maior inimigo do herói. E final feliz, claro.          Na volta pra casa, enquanto andávamos pelas ruas relembrando o filme assistido, eu vinha galopando pela cordilheira em cima de um cavalo enorme, segurando as rédeas com uma das mães e acertando bandidos ou índios com a outra – conforme o inimigo da ocasião. Antes de dormir, como prêmio, beijava os lábios carnudos da amada, tipo Angelina Joly, resgatada heroicamente sob uma chuva de balas vindas de todos os lados.          A partir da adolescência, entretanto, naquele intervalo que existe entre o deitar e o dormir, vivi o James Bond em todos os filmes do Sean Connery, o Marcello Mastroiani conquistando todas as mulheres e até pouco tempo era o homem sonhado pelos personagens da Scarlet Johansen, da Gwneth Paltrow e da Penélope Cruz.         Ultimamente, redescobri o faroeste.  Não dos filmes dos falecidos John Wayne e Glenn Ford. O meu negócio agora é viver o Clint Westwood chegar no povoado, não dizer seu nome, não tirar a cigarrilha da boca, apenas ficar com a loura do saloon, ser contratado para acabar com mal-feitores, não errar um tiro e tão calado quanto chegou, subir no cavalo e ir embora.          Mas, se estiver encarnando um bandido tem que ser o Lee Van Cleff. Ator símbolo dos malfeitores do qual acompanhei a trajetória desde que entrava mudo e saia calado dos filmes e morria logo no início da história. Depois, foi promovido a chefe da bandidagem. Mercenário como poucos, só usava Winchester. Olhos semicerrados de mau, dentes pontiagudos, bigode e costeletas. Todo de preto e fumando cachimbo que acendia riscando o fósforo na bota matava famílias inteiras sob um sorriso de escárnio. Foi um bandido tão emblemático que no final da carreira foi eleito xerife. Morreu com a estrela espetada no peito do colete.            Mas, essas revisitas, estão apresentando um problema: apesar de continuar conquistando as heroínas, domando os mais ariscos dos cavalos e prendendo os piores bandidos, ando sem paciência e estou atirando nos índios pelo mais fútil dos motivos. Por enquanto só para espantar.           A questão é que, a minha pontaria é tão certeira que, quando decidir a atirar para valer, vão me acusar de maltratar mais os índios dos Estados Unidos do que o General Custer.