“BEBUNS” 

    Li que para os antigos faraós o vinho era um santo remédio. Para eles, a bebida proporcionava mais do que prazer na vida. Era um bálsamo inclusive para a existência após a morte, que acreditavam existir. Não afianço de que exista vida post-mortem e tampouco sou um “expert” sobre os prazeres proporcionados pelo vinho, entretanto, sempre adorei histórias sobre “figuraças” bons de copo. Acho até que dariam outra crônica. Boa parte delas li há muito tempo atrás, nos livros “Confesso que Bebi” do Jaguar e “Boêmio e Bebidas”, do Paulo Pinho. As duas narrativas a seguir, “rezam” das lendas bacenianas e friburguenses, mas, desconfio que foram bebidas na mesma fonte. Dizem as más línguas internas que um ex-funcionário, morador do Leme, depois de “fechar” o último bar de Ipanema, resolveu pegar uma condução para casa, certo de que, exceto a linha para a Urca, as demais serviriam. Sem conseguir enxergar nada, confiou na sorte e fez sinal para o primeiro coletivo que apareceu. Era o 474 – Jardim de Alah – Jacaré. Traduzindo: o Jardim de Alah fica na zonal sul, perto do Leme, onde morava; o Jacaré, do outro lado, no subúrbio. Entrou, sentou, dormiu. Acordou no Jacaré!  Depois de levar algum tempo para saber onde estava, viu que o “carro” em que viajara para o Jacaré era o único do ponto e soube que só partiria novamente dentro de vinte minutos. Para “matar” o tempo e aliviar a fome, foi até uma birosca, onde uma velhinha servia uma sopa de legumes. Tomou um prato, pagou e, a seguir, pegou o ônibus de volta. Despertou no Leblon! Desceu, deu uma volta e entrou mais uma vez no único ônibus estacionado, com a intenção de saltar no Leme. Acordou novamente no Jacaré, em frente à birosca da velhinha, mas, dessa vez, com a certeza do lugar onde estava. Pediu outra sopa. Enquanto tomava o caldo, ouviu alguém perguntar para a velha quem era o desconhecido: “O nome não sei. Mas, mora na Zona Sul e adora a minha sopa. Só hoje veio aqui duas vezes…”.  Dizem que em Friburgo, vivia um “bebum” que todo dia, depois do trabalho, parava para tomar “uma ou duas” num bar e, só depois, ia embora. Contudo, nos dias de futebol, permanecia ouvindo as partidas com os demais freqüentadores, quando, invariavelmente, passava dos limites e arranjava uma discussão. Naquelas horas, sem que ninguém acreditasse, ameaçava ir até em casa, pegar a sua carabina, expulsar aquele “bando de analfabetos” do bar e ouvir o jogo sozinho.  A partir de uma segunda-feira o “bebum” sumiu. Os dias foram passando e surgiram vários boatos sobre a sua ausência. Mas, o que “pegou” foi o de que ele havia entrado para os AA e parado de beber. No domingo seguinte, dia de decisão entre Vasco e Flamengo, o “bebum”, já com “os trabalhos iniciados”, reaparece no bar lotado, brandindo sua espingarda de um lado para o outro, e perguntando com gravidade: “Quero saber quem foi o filho da puta que andou espalhando que parei de beber?! Não sobrou ninguém para responder. Finalmente, naquela tarde, o “bebum” ouviu o jogo sozinho, sem “aquele bando de analfabetos” para atrapalhar, como sempre desejou.