O INIMIGO PÚBLICO Nº 1

    A segregação aos fumantes está partindo para atitudes beligerantes. Michael Sigel, médico e um dos líderes do movimento antitabagista nos EUA, foi acusado de “traidor” e de ter recebido dinheiro da indústria do tabaco, porque questionou publicamente os exageros (inverdades?) dos argumentos científicos e as políticas públicas em torno dos efeitos do fumo passivo. Quando leio sobre o assunto, lembro que a minha convivência com o cigarro começou por querer imitar o meu pai, fumante inveterado, que morreu de um problema cardíaco.Sob o olhar complacente da minha mãe, os meus primeiros cigarros foram de talos secos tirados das parreiras de chuchu que havia no quintal da minha casa. Depois, numa fase “mais rica”, passei a fumar cigarros de chocolate comprados em maços como se fossem de verdade. Antes de serem comidos, eram devidamente “fumados” como faziam os adultos. A gente soltava e ficava apreciando uma fumaça imaginária. A partir da adolescência, o cigarro, com seu jeito calmo e calado, sempre esteve presente na minha vida, especialmente naqueles momentos em que não sabia onde enfiar as mãos, como na expectativa do encontro com a primeira namorada. Não fumo há dezesseis anos. Mas, tenho saudades da relação de prazer que mantive com o cigarro por, pelo menos, quinze anos.  Atualmente imponho uma única condição quando algum fumante pede licença para acender um perto de mim: a de expelir a primeira fumaça em minha direção para “saborear” o seu perfume.  Para este dia 9 estava marcada a marcha da maconha, que possui uma festiva divulgação na mídia. É como disse o Ruy Castro, na Folha-SP: “Os inimigos do cigarro devem achar que maconha é um negócio para passar na pele ou beber de canudinho – e não para acender, queimar e engolir fumaça, exatamente como o Malboro e o Hollywood.  Na “Época”, o colunista Ricardo Amaral – fumante inveterado – protestou contra uma ineficaz lei antifumo do José Serra (SP) que, entre outros artigos demagógicos, prevê que a pessoa que for flagrada fumando não sofrerá punições, mas o estabelecimento poderá sofrer multas que vão de R$792 a 3 milhões. Bitucas (guimba), cinzeiros cheios, cheiro de fumaça serão consideradas provas, mesmo que os fiscais não encontrem ninguém fumando. E com toda razão perguntou: “Se o estado quer mesmo combater o vício, porque não proíbe logo a produção de cigarros e dispensa uma arrecadação anual em R$6 bilhões em impostos?”    Procuro, mas não consigo entender as razões que fazem do cigarro  o inimigo público nº 1 e a maconha uma heroína, quando seu consumo pode trazer conseqüências emocionais, de saúde e sociais irreparáveis, tanto para fumantes ativos quanto para passivos, muito piores que os do cigarro comum.  Aposto que é coisa de ex-fumante raivoso, do tipo que cansou de dar “baforada” na cara de todo mundo dentro de elevador cheio e fechado.

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