DA ADMIRAÇÃO AO DESPREZO, VICE-VERSA OU OS DOIS

            Li que o Chico Buarque tomou um susto ao saber, através das redes sociais, que ele não era tão amado quanto julgava ser. Há os que o odeiam. Também fiquei surpreso. Achava que apenas pessoas polêmicas (o que não é o caso do Chico) despertassem o sentimento de amor ou de ódio.        Fiz um “upgrade” na memória sobre quem admirava ou desprezava e, para minha surpresa, encontrei personagens sobre os quais troquei de sentimento. No embalo das minhas filhas que eram fãs da Xuxa, aprendi a gostar da apresentadora. Considerava-a uma criança grande fazendo programas de TV e me impressionava com o fascínio que ela exercia sobre “os baixinhos”. Só que o tempo passou e a Xuxa transformou-se numa “mala sem alça” que a Globo, sem outra saída, “ensanduicha” seu programa entre os da Angélica e do Luciano Huck para conseguir carregá-la.         Desinformado, culpava os 7 meses do Jânio Quadros na presidência pelo golpe militar de 64. Devagar, fui descobrindo que a ditadura surgiu da pressão que os EUA exerceram sobre a elite, banqueiros e militares brasileiros, para afastar do país os “perigos do comunismo”.          Descobri no Jânio um personagem de cultura excepcional, ascensão política incomum e toques de humor impagáveis: em 1985 disputou a prefeitura paulista com FHC. No dia da eleição, Fernando Henrique – considerando-se eleito – foi capa dos jornais sentado na cadeira do prefeito. Jânio ganhou a eleição e o seu primeiro ato foi mandar desinfetar a cadeira do prefeito. Nestes tempos de pobreza de personagens políticos brilhantes, Jânio faz falta.                Eleito presidente, passei a prestar a atenção em Fernando Collor. O dono de poderoso marketing pessoal, bom orador, físico e trajes elegantes, me fez crer que estávamos sendo governado por um estadista e passei a admirá-lo. Mas, deu no que deu. Seu corrupto governo fez água por todos os lados e um dos dias mais felizes da minha vida foi o da sua forçada renúncia. Deveria ser proibido de desfilar por aí com a mesma empáfia e arrogância.                 Na “guerra fria” entre EUA e Rússia nos anos 60, torcia para que a CIA desse um sumiço no primeiro-ministro russo Nikita Kruschov, de quem tinha um medo danado, muito pela sonoridade do seu nome, mas, também, pelas fotos onde sempre aparecia carrancudo, com cara de “comedor de criancinhas”.               A partir da leitura imparcial das notícias, conclui que o dirigente soviético era apenas um político que protegia os interesses russos, assim como Kennedy defendia os dos EUA. Lendo a sua biografia, passei a admirar o “homem” que enfrentava os americanos ao mesmo tempo em que desprezava o dirigente por ser comunista. Como um sentimento não anulava o outro, minhas lembranças me dizem que Nikita Kruschov foi o primeiro e único personagem que se tornou, ao mesmo tempo, meu herói e meu bandido.

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