DEJA VU

            Um conhecido me contou que nem a sua condição de remanescente solteiro e sem filhos de uma turma de amigos de adolescência, se constitui em blindagem contra os convites para aniversários infantis. Sem saída, e confiando na pontualidade das casas de festas, o sujeito utiliza uma tática infalível: chega sempre no final.          Infelizmente, eu, uma vítima em potencial desses eventos, só agora, quando as minhas duas filhas estão adultas, é que fui informado sobre a existência desse poderoso antídoto.           A “via crucis” começou logo que completaram um ano. As comemorações, realizadas na minha própria casa em época de vacas ainda mais magras, me obrigaram a buscar – a pé – os bolos nos supermercados, varar madrugadas enrolando brigadeiros e montando enfeites, e nas festas, “jogar nas onze” como garçom, fotógrafo, DJ, animador infantil e relações públicas. O problema de se oferecer uma festa infantil é a reciprocidade dos convites. Assim, como obriguei aos amigos, fiquei na obrigação de comparecer as efemérides, como diriam os antigos cronistas sociais, de todas as crianças próximas, e, ainda por cima, demonstrar satisfação em aturar a Xuxa repetir um milhão de vezes: “Hoje vai ter uma festa… bolo e guaraná, muitos doces pra você.ê.”.           A caçula, a partir dos cinco anos, passou a adiar a hora de cantar os “parabéns”, sob a alegação de que, logo após, todo mundo ia embora. Diante do exposto, meia-noite era cedo para acender as velas.         Numa segunda fase, juntaram-se aos aniversários, os festejos escolares que sempre começavam com atrasos de horas, requeriam uma logística de guerra para a movimentação das turmas, cada apresentação durava uma eternidade e ainda por cima, eram precedidas por um bis para as fotos dos “babosos” familiares. E a Xuxa insistindo: Ilarilarilariê, Ooô, Ilarilarilariê, Ooô “, Tá na hora! Tá na hora! Ta na hora de brincar”.         Mal havia assimilado a rotina, fui comunicado de que elas iriam “fazer aula” de balé! Não me toquei até a caçula passar a ser uma das “estrelas” do “corpo de baile” da academia. Em finais de semana – da tarde para a noite -, íamos acompanhá-la nos encontros realizados na periferia. Mesmo na qualidade de convidada especial, a delegação da “nossa” academia chegava cedo, fato que não a eximia da honra de ser a última em se apresentar…          Quando a mais velha entrou para uma quadrilha que se apresentava em folguedos caipiras, “fubecou tudo”, como diria um antigo filósofo do BC. Isso porque, na maioria dos meses do ano, meus finais de semana foram de dar inveja ao Roberto Justus: encontros de balé e festivais de quadrilhas em Austim, Inhaúma, Jacaré…          Como a caçula optou por viajar, estabeleci que após os 15 anos da mais velha, fugiria dos rega-bofes do gênero. Assim, durante semanas, resisti ao caos em que transformou o playground do meu prédio com os ensaios que não começavam nunca. Na data, numa noite de calor senegalês, assisti a missa numa igreja /estufa, dancei as valsas obrigatórias num salão lotado, sem ar-condicionado e enforcado pela gravata no interior de um terno. Resisti até ao final, graças a um banho, a troca de roupa e a ressuscitantes chopes.         Sexta passada me refestelei no sofá de casa, ainda com a roupa do trabalho. Do corredor surgiu a minha neta de cinco anos protestando aos prantos contra uma ida a um aniversário de uma colega de escola. Ao me ver, abriu o irresistível sorriso, me puxou com a mãozinha e imperativa ordenou: – “Vovô” leva Ana Clara!        Nesse momento, revi cenas de um filme, no qual, com certeza, voltarei a ter papel de grande destaque.