MEU TEMPO NÃO É HOJE

     Andei amaldiçoando os orelhões da Rodoviária Novo Rio, porque mesmo apelando para todos os santos tecnológicos, não consegui falar com Friburgo a 131 km. Daí lembrei que no meu tempo, para fazer um telefonema interurbano, bastava entrar numa fila, comprar uma ficha e sentar numa sala de espera. Do interior de uma cabine, discava e pronto: alguém atendia e… A ligação caia… Como o orelhão havia engolido a sua ficha o jeito era repetir a operação. Essas recordações foram atropeladas por uma mãe que, ao meu lado, por celular, fazia questão que todo mundo soubesse que estava falando com a filha em Nova Iorque, a 7.757 km. Nessas horas fico entre o saudosismo e o modernismo, mas admito que algumas assertivas do meu tempo perderam um elemento indispensável, que dava glamour a aquela época: o fator surpresa. O exemplo pode vir da antiga certeza de que de “barriga de grávida, urna eleitoral e cabeça de juiz ninguém sabia o que viria”. Descobrir o sexo de futuro bebê deixou de ser motivo de apostas, simpatias e promessas. O exame de ultra-sonografia indica a cor do enxoval e acabou com as previsões das candidatas à madrinha de que “pelo feitio da barriga, aposto uma caixa de cerveja que vai ser menin… ” A exposição pública das falcatruas dos juízes Lalau e Costa Neto, liquidou com a crença de que ninguém sabe antecipadamente o que contém uma decisão judicial. Funcionam a todo vapor indústrias de sentenças cobradas de acordo com o taxímetro. No meu tempo de Friburgo, havia um juiz que, por sua rigidez, impunha um respeito de tal ordem que, neguinho e branco, evitavam cruzar com ele nas ruas. Se o encontro fosse inevitável, o jeito era prender a respiração.Agora as pesquisas desmentem a tese que eleições não são ganhas de véspera e as urnas eletrônicas tiraram-lhes a graça! No meu tempo ainda havia a esperança de que a chegada dos votos da “zona da mata” mudasse o resultado. No 2º turno da última eleição presidencial, antes do resultado da “boca de urna”, o TSE já havia computado 70% dos votos do pleito. Deixei a pior parte para o final: a nova atendente da ginástica – linda e jovem – deu uma piscadela para mim. Quase caí da escada de acesso à rua, quando olhei em volta procurando o felizardo. Outra: me senti o Brad Pit. Mais uma: nem dormi. Mas, conhecedor dos limites dos meus atributos físicos perguntei a ala jovem da academia, sem revelar o motivo, o que significava uma piscadela: – “Nada! É apenas uma forma simpática de cumprimento, responderam. Insisti: – Nem a possibilidade de um namorinho?”. Eles, definitivos: – “Não! Nada! É um cumprimento apenas”.”Pois no meu tempo, uma piscada significava mais do que aquela cruzada de pernas sem a peça íntima da Sharon Stone em “Instinto Selvagem”, desabafei. Seus estupefatos olhares me afiançaram de que – à exceção da falta de calcinha – para eles, piscadela, Sharon Stone e Instinto Selvagem, são registros de um tempo que eles desconhecem e não volta mais: o meu tempo.

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