DESFILE DE LINGERIE

    A redução do cós das calças femininas tornando pública a cor da calcinha era o tema da reunião familiar. Subitamente, minha irmã “tirou do baú”: “Lembra daquele filme em que você viu os fundilhos da Rossana Ghessa? Falou disso um tempão! De repente, proibiu que se tocasse no assunto. Parece até que se sofreu um trauma… sei lá!”Na minha adolescência, um dos fetiches masculinos era descobrir tipo e cor das lingeries da paixão amorosa da vez. Imediatamente, o questionamento fez com que várias imagens povoassem as minhas lembranças.No colégio, Michele, uma linda normalista, reinava sozinha. Um dia, descobrimos que um simples deslocamento no tapume que cobria o vão da escada permitiria a observação da subida da deusa para a sala de aula através dos degraus vazados. Contudo, a fila nem chegou a andar. O primeiro voyeur – e também o último – estarrecido com o que viu – anunciou: “- Ela usa calção!”: Michele escondia sua intimidade por baixo do short de ginástica. Outra estratégia era a de ficarmos escondidos entre as árvores das margens do rio Bengalas de Friburgo, bem debaixo da ponte do trem da Maria Fumaça. Esperávamos horas e horas por algum rabo de saia cortar caminho utilizando os dormentes da plataforma que, apesar de intervalados, não ofereciam qualquer perigo. Hoje, dada a variação da cor da calcinha que cada um anunciava para uma mesma paisagem, concluo que ninguém via era nada. O advento da minissaia facilitou o clássico espelho no peito do pé do sapato. Enquanto a vítima era mantida distraída no centro da roda, quem, por rodízio, estivesse às suas costas, podia ver o panorama de baixo para cima. Após um futebol de rua – muito tempo depois do filme de Rossana Ghessa – , deitei para descansar na grama da calçada sem notar que uma vizinha de grande porte, branca, sardenta e entrada nos anos, estava aprendendo a andar de bicicleta. Do atropelamento de que fui vítima, soube mais tarde, apenas, que ela subiu pela minha barriga e caiu no chão. Traumático foi o que vi depois: envolta na saia repousada na grama e caída de costas, as pernas da mulher, esticadas para cima, formavam um simétrico L. Melhor seria se os segredos desvendados naquele momento tivessem permanecido invioláveis. Foi então que retruquei aos familiares – aqueles, reunidos, lá do primeiro parágrafo: “Entenderam porque dei um tempo em falar de calcinha?”

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