DIRETAS SEMPRE

                                                                                                               Uma vez ouvi o João Saldanha dizer que quanto mais o tempo passa, menos a gente se lembra dos fatos recentes e mais se recorda dos acontecimentos antigos. Neste último 26 de abril, logo pela manhã, li nos jornais que fazia vinte anos da não aprovação pelo Congresso Nacional da Emenda Dante de Oliveira, a que restabelecia eleições diretas no país. No momento seguinte os acontecimentos daquela fatídica noite retornaram à minha frente como num filme antigo: no auditório da Câmara Federal superlotado, a platéia perplexa não conseguia desviar os olhos marejados de lágrimas do placar eletrônico que apontava para o resultado que a vã esperança popular teimava em não aceitar: cerca de 270 votos favoráveis e menos de 70 contrários à emenda. O quorum necessário à aprovação era de trezentos e dois votos a favor. Estudiosos afirmam que o estado de prostração e frustração que tomou conta da nação só encontra paralelo na final da Copa de 50, quando o Uruguai derrotou o Brasil no Maracanã. Dor que só não foi maior, porque as Organizações Globo (tevês, rádios, jornais e revistas) ignoraram solenemente o movimento que transformou o país através da realização de comícios para multidões nunca inferiores a 500 mil pessoas.        Na banca de jornal aqui do lado do prédio do BC, uma foto do comício das Diretas no Rio com mais de um milhão de pessoas presentes, das quais eu era um a mais, me fez viajar – literalmente – pelo “túnel do tempo”. Caminhei da Presidente Vargas até a Candelária. No trajeto ouvi trechos de discursos de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Lula e Fernando Henrique. Repeti as palavras de ordem do Osmar Santos e até cantarolei o Hino Nacional.        Ajudado pelos telejornais da noite, relembrei cronologicamente os fatos, fotos e imagens da sucessão de vitórias obtidas a partir do “Movimento das Diretas Já” ‘: primeiro veio a acachapante derrota de Paulo Maluf para Tancredo Neves. Maluf foi o candidato do golpe de 64 no Colégio Eleitoral formado pelos membros do Congresso Nacional, numa disputa considerada como ganho pelos governistas dado ao alto poder do candidato a obter triunfos a qualquer preço. Nesse rastro vieram à garantia de posse do vice José Sarney (surpreendido com a doença e morte de Tancredo antes de ocupar a presidência); o clamor popular que exigiu o impeachment de Fernando Collor; os insossos, porém, tranqüilos oito anos FHC e a chegada de um sindicalista à presidência.        Fechei a overdose de notícias, assistindo também o Jornal Nacional. Com a pompa característica, o apresentador leu a última notícia informando que, naquela data, em 1965, portanto há 39 anos, a emissora colocava no ar o primeiro programa infantil brasileiro, o Uni-Du-Ni-Tê. Passaram-se 20 anos e a Rede Globo não apreendeu a lição: continua escondendo do povo as “Diretas Já”. Movimento que proporcionou ao povo brasileiro a voltar se expressar politicamente na única linguagem que conhece: a democrática.