DITADURA PUBLICITÁRIA

    Ao me aposentar, com exceção dos compromissos obrigatórios, sonhava em fazer o que me desse na telha: andar por onde e na hora que quisesse, enfim me sentir inteiramente livre, leve e solto. Até que tenho conseguido algumas vitórias em determinados sentidos, contudo, existe um segmento que tem conseguido me manter refém das suas armadilhas: o publicitário. O cerco começa logo cedo ao abrir a tampa do depósito de correspondências para verificar quem se lembrou de mim. E todo dia é a mesma coisa: está entupido de panfletos de quentinhas, restaurantes, lanchonetes, pais de santos e vários tipos de mães. No meio da papelada, ainda sou premiado com os envelopes dos boletos de cobranças.Mais tarde, a abordagem publicitária me encontra em qualquer parada no sinal de trânsito. Posso até recusar os panfletos daquelas arapucas que oferecem pneus quase de graça, já que, nas tais oficinas, os mecânicos colocam mil e um defeitos nos pneus dos carros e alertam para a necessidade de trocá-los imediatamente. Contudo, fica difícil escapar das lindas jovens uniformizadas oferecendo um colorido encarte do último lançamento imobiliário.Comparo a leitura das revistas semanais a uma prova de obstáculos. Na VEJA, por exemplo, para se chegar à primeira matéria, é preciso ultrapassar cerca de vinte ou mais páginas de publicidade. E entre uma matéria e outra é quase a mesma coisa. Num dos últimos números da ÉPOCA, a revista circulou com 138 páginas das quais 58 eram de anúncios.  Ninguém consegue navegar na internet sem tomar um susto com os anúncios que “saltam” na sua cara, assim que surge a primeira tela da maioria dos portais. Também são rotineiros aqueles que vão e voltam e outros que não se cansam de voltar.Nem vou falar dos anúncios do rádio e da TV porque nesses veículos os chamados “comerciais” são uma instituição. Da mesma forma, está institucionalizado que qualquer andança pelo centro do Rio de Janeiro é sinônimo do recebimento de dezenas de panfletos anunciando de tudo o que se pode imaginar: de termas a “dez real” a extração de dentes sem anestesia e sem dor. O “trim” do telefone me faz tremer. Especialmente quando, ao atender, ouço do outro lado da linha aquela vozinha feminina, educadíssima e suave. Não tem erro. Lá vem o oferecimento de cartões de crédito, planos telefônicos, TV’s a cabo, internet, etc. Quando me referi ao período pós aposentadoria não foi porque passei a prestar mais atenção nos panfletos com propostas para cruzeiros marítimos ou empréstimos consignados. O que mais de abalou foram os folhetos de consulta grátis em clinicas que cuidam da disfunção erétil e das facilidades oferecidas pelas farmácias para a compra do Viagra.

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