ESPÍRITO NATALINO

           Como soube que, devido o período de troca e retribuição de presentes, a temporada de natal só termina de fato no último dia 31 de janeiro (hoje ainda são 29 como diriam os chatos de galocha) e até lá estaremos regidos sobre o signo do espírito natalino, acho que ainda é tempo de falar sobre assuntos do gênero, sob a ótica do que fica escondido nas entrelinhas.            Como não vivo sem uma cultura inútil, fui pesquisar na internet e, de saída, descobri que a comemoração do Natal, no dia 25 de dezembro, como se diz na gíria do futebol, é “gato”. Como a igreja não possuía nenhum documento que comprovasse o nascimento de Cristo, fez coincidir a data com a do culto pagão ao nascimento do Sol. A seguir, propagou entre os fiéis a idéia de que o Filho de Deus era a luz que se acendia para iluminar o Universo.        O atual Papai Noel, inspirado em São Nicolau que ajudava aos pobres nos finais de ano, é o resultado de uma bem sucedida campanha publicitária da Coca-Cola que, a partir 1881, mostrou o velhinho com a roupa nas cores do refrigerante: vermelha e branca. Papai Noel, portanto, não passa de um subproduto da gigante americana.           Pelo menos no Rio e em Curitiba, a temporada de natal só é iniciada se tiver o aval dos bancos, ou seja, só começa oficialmente quando são acesas as luzes da árvore do Bradesco na Lagoa e com as apresentações do coral de crianças no prédio do HSBC-Bamerindus, no Palácio Avenida. Fato que desmente a lenda de que a festa é inteiramente comercial.        Depois, vêm as festinhas no trabalho e nas conduções onde acontecem os infalíveis “amigos-ocultos”. Além dos presentes trocados serem os cd”s de sempre, ainda há o agravante de ouvir gente que se detesta dizendo para o outro: – “Amei ter tirado você…”        No dia de Natal, a ceia em família reúne pais, irmãos, cunhados, abraços, beijos, lágrimas, uísque, vinho. No almoço do dia 26, as sobras e as diferenças que permaneceram da noite anterior geralmente são mal digeridas. E o que é pior: no melhor do sono da tarde, há que se aturar, “pê” da vida, a visita daquele casal emergente contador de vantagens.        Quem deixou para realizar suas compras rotineiras para depois do Natal esperando lojas vazias, deve se preparar para uma desagradável surpresa: estão lotadas, pois todo mundo está trocando o presente que ganhou.         Deixei por último o tal do espírito natalino, porque analisando os parágrafos anteriores e relembrando alguns dissabores natalinos que já assisti, não posso deixar de concordar quando ouço alguns interlocutores afirmarem que o “espírito natalino” equilibra-se entre a incerteza da data atribuída ao nascimento de Cristo e as segundas intenções do Papai Noel da Coca-Cola.     

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