HAJA PACIÊNCIA!

    Em verdade a segunda palavra que compõe o título acima deveria ser outra, mas não encontrei no dicionário algum sinônimo que a substituísse à altura da força de expressão que a ela eu pretendia dar. Usá-la, porém, seria grosseiro com meus leitores habituais. Os sinônimos por mim encontrados foram: “Enfado, amolação, caceteação, chatice, chateação.” Preferi usar o vocábulo paciência. E foi ela que tive que exercitar, e muito, hoje à noite, ao assistir aos jornais televisivos de 3 canais. Esforcei-me bastante para não perder o bom humor e até que consegui fazê-lo conviver com a minha irritação. Refiro-me a cenas da abertura dos trabalhos do Congresso Nacional. Ora, ora, ora, não é que depois de sacudir a poeira de uma fragorosa derrota nas urnas ressurgiram no cenário político, como se estivessem num palco, lideranças como as do PFL e do PSDB que, logo no limiar dos trabalhos, mostraram-se “indignados” com o atual governo e desancaram-lhe ferozes críticas como se o novo Presidente da República já estivesse no cargo pelo menos a metade do tempo que os mesmos senhores lá permaneceram antes como base de apoio do governo anterior. Amigos leitores, desculpem, mas não sou de ferro e nem minha paciência é de Jó: quanta cara-de-pau!! Devem até ter esquecido de dar um boa tarde, ou boa noite aos seus pares ao iniciar seus pronunciamentos. O Sr. Bonhausen (tomara que eu tenha errado na grafia do seu nome…), inflamado,  travestindo-se de oposição, coisa que o PFL nunca conseguiu ser em toda a sua trajetória, bradava contra o fato de o novo governo ainda não ter apresentado à Casa  seus projetos para urgentes reformas, como a Previdenciária e a Tributária, principalmente.  Com licença, mas não consigo conter-me:  hahahahahahahahaha… E o líder do PSDB, afinado com seu colega do PFL, proferiu veemente discurso na mesma linha. Ainda bem que o Sr. Mercadante, falando pelo PT, com moderação, com equilíbrio, e com a palmatória na língua, lhes aplicou umas boas palmatoadas. O que ele disse, repito eu agora, e certamente repetirão todos os brasileiros que já cansaram de aleivosias. Esses mesmos senhores permaneceram 8 (oito) anos  no poder, formaram a base de sustentação de FHC, junto com o PMDB e outros menos votados. Somados, eles totalizavam uma maioria expressiva e tranqüila que permitiria ao governo anterior aprovar o que bem entendesse. Projetos para aquelas reformas até foram enviados pelo então governo ao Congresso. E por quê não os aprovaram?  Querer jogar a culpa toda em cima de atitudes de alguns representantes do PT, que, por divergirem de aspectos dos referidos projetos, posicionaram-se contra os mesmos, em determinados debates, é, no mínimo, mentir e caluniar. O PT, junto com outros partidos que se colocaram na oposição ao governo de FHC, podiam fazer o barulho que bem entendessem, buzinaços mil, todavia jamais teriam votos suficientes para impedir a aprovação de qualquer projeto daqueles. Faltou sim uma coisa muito importante, diálogo, e, acima de tudo, interesse político. Agora, por exemplo, se vê o quanto está complicada a discussão com setores da sociedade para costurarem a reforma da Previdência. Direitos adquiridos, interesses contrariados, etc e tal, são pedras que dificultarão e muito os entendimentos, mas ao que se sabe o atual governo está disposto a prosseguir no diálogo, nos debates, e levar a cabo essa missão. Dificuldades haverá sempre, inclusive para buscarem um consenso pela indispensável e inadiável reforma tributária, para não falar de outras, como a reforma agrária, etc. Nos oito anos passados, os senhores fizeram muitos discursos, enfatizaram a necessidade das reformas, acenaram ao povo com elas, mas na hora “h”… chabu. E os senhores tão respeitáveis, hoje “indignados”, tiveram o desplante de berrar: “Já se passaram 49 dias… e o governo nada nos apresentou ainda sobre essas importantes reformas.” Ohhhhhh… 49 dias… que absurdo, Sr. Lula da Silva! E eu votei no senhor! Creio que todos sabemos fazer simples contas básicas como somar, multiplicar, dividir e subtrair, não? Ótimo, então vamos nos exercitar. Oito anos representam 2920 dias. Caramba, tudo isso?! É verdade, 2920 dias que os senhores do PFL, do PSDB, do PMDB, mais aliados do PPB e outros menos votados, viram passar enquanto envelheciam seus mandatos e suas idéias,  e procrastinavam aquelas  reformas. Façam as críticas que desejarem a políticos do PT, alguns até as merecem, e de outros pequenos partidos também, digam o que bem quiserem e entenderem contra alguns de seus posicionamentos no Congresso anteriormente, mas não tentem nos engabelar, senhores, porque a maioria que tudo podia decidir estava com essas siglas: PSDB, PFL, PMDB, PPB e  mais alguns “afiliados”. Não comecem a nova legislatura com atitudes que antes tanto criticaram nos partidos de oposição. Vistam ao menos a coerência, a probidade e a verdade. Nosso povo está cansado de “pinóquios” e de contumazes negociadores da porta do templo. Estamos todos no mesmo barco, queremos todos o bem de nosso país, mas sejam ao menos criativos, originais, e exerçam uma oposição, já que a abraçaram, mas  realmente construtiva, que coloque a verdade acima de tudo, que objetive sempre os interesses maiores de nosso país e de nosso povo, independente de partidarismos.   Os seus primeiros discursos, hoje proferidos, conseguiram fazer corar a eventual incoerência, resistência e/ou impertinência do oposicionismo que os senhores tanto criticaram e denunciaram nos partidos que se opuseram ao governo FHC, entre eles o PT. Era preferível que tivessem levado o silêncio para a tribuna, já que nem houve tempo para que o novo governo tenha ao menos o direito de errar, tentando acertar.