Informática

    As respostas não variam muito quando são consideradas as maiores descobertas do ser humano. É claro que, na liderança, está a roda. Depois é que aparecem em ordem da qual não tenho notícia, o fogo, as vacinas, a eletricidade, a imprensa, etc. No entanto, por viajar e se reproduzir na velocidade da luz e pela infinita capacidade de proporcionar soluções, ampliações, segurança, modernizações e simplificações a todas atividades envolvidas na rotina diária da vida humana, a revolução da informática tornou-se maior do que a industrial, ocorrida a partir de 1835 na Inglaterra. E, hoje, por sua capacidade da onipresença, começa a ultrapassar a importância outrora atribuída à roda. Se esta foi o começo, a informática é o princípio, o meio e o fim. Se tivesse mais do que seis leitores, poderia apostar que logo apareceria algum “iluminado” para contestar a afirmação e dizer que, sem pelo menos a roda e a eletricidade, não haveria a chance desta transformação espetacular. Esse é o tipo de argumento que me lembra a resposta de um tio ao ser abordado por um inoportuno à saída de um cinema. Disse o sujeito: “Viu! Se a mãe tivesse contado ao assassino desde o início da” fita “que ele era o filho adotivo, o rapaz não teria matado tanta gente depois…”. Pensamento que teve uma irretocável rebatida: “Como também esse filme não teria sido feito…”.Entre outras tantas modalidades, é claro que a informática nunca conseguirá, substituir a satisfação da degustação de uma suculenta feijoada, regada a generosos goles de chopes estupidamente gelados; ou o prazer e a emoção da experiência de um furtivo beijo roubado do primeiro amor, sob o ranger das taboas do assoalho que denuncia e alerta para a chegada de gente.Apesar de entusiasta dessa definitiva era da informatização, existem horas em que vibro com algumas de suas derrotas. Editorações eletrônicas não têm sido bem sucedidas. Lembro-me de duas tentativas de lançamentos de livros virtuais: um do Mário Prata e outro do João Ubaldo. Ambas fizeram água. Também possuo informações e constato de que nem as revistas e muitos menos os jornais sofrem qualquer prejuízo com as edições “on-line”. Quem gosta de ler, exije o contato físico e manual com o papel. Além do que, cerca de 50% da satisfação de uma agradável leitura está na liberdade das escolhas: de local; de posição; de horário e da ordem de assuntos que cada um julga mais aprazível e conveniente. Sem essa da ditadura de uma tela de micro, em posição desconfortável e tendo que realizar mais de um passo para voltar, pular ou marcar a página que mais nos interessa. Recentemente, foi lançado um livro com a reprodução das 900 cartas escritas por Luiz Carlos Prestes na prisão, de 1936 a 1945, durante a ditadura Vargas. Boa parte delas trocadas com Olga Benário. Já imaginou a ansiedade que deveria causar no casal a espera da chegada de uma resposta à última correspondência? Quantas vezes o barulho da sirene da campainha ou algo que o valha anunciando o chegado do carteiro deve tê-los levado a sentir aquele frio na barriga? E as palavras riscadas e borradas? O que queriam dizer? Que aroma era aquele impregnado no papel? E aquelas pétalas, em anexo, foram colhidas em que jardim? E o beijo enviado através da marca do batom? Nenhum romance funciona sem contato a presença do contato físico. O amor virtual é moderna mentira.No entanto, Olga e Prestes, felizmente, não foram obrigados a se corresponder através de “mensagens eletrônicas”. Ainda não havia o “e-mail”. Talvez o motivo pelo qual tenham conseguido vivenciar um lindo caso de um improvável amor.