” INGUINORANÇA!”

    Assistia na TV à reprise da chegada do homem à lua, enquanto Dona Marina, uma vizinha, rezava meu inchado tornozelo vítima de um embate futebolístico. Notando meu interesse pelo acontecimento, a curandeira fez uma pausa no ritual de cura e observou: – "Deus di céu! Quanta inguinorança! E ainda tem gente que acredita! Isso é coisa de ateu!"Depois disso o Muro de Berlim foi derrubado, o mundo virou refém da informática, as guerras são cirúrgicas e televisadas. No entanto, as crendices populares não perdem o poder de iludir. Deve ser exagero, mas li na coluna do José Simão na Folha de São Paulo que cartazes colados nos postes da cidade anunciam os poderes de um certo Pai Ambrósio: "Encontro cachorro perdido. Tiro unha encravada e fimose. Jogo cartas, bingo e bilhar. Curo tudo. Até viadagem". Aqui no Rio, a mesma coisa. Podem ser encontrados com facilidade reclames para os casos mais impossíveis e o desvendamento de qualquer mistério entre o céu e a terra. Em seu comercial, Maria Padilha anuncia: "Jogo búzios. Consulto. Tranco Rua. Sete catacumbas. Faço e desfaço trabalhos! Trago pessoa amada em uma hora. Rastejando a seus pés em um dia! "As modalidades e o "resultado" das consultas são comuns. O que surpreende são os preços. Por telefone, R$ 15,00; pessoalmente: R$ 97,00. Devem ser números cabalísticos. Os jornais populares analisam até sonhos. Veja o que significa sonhar com uma festa: se agitada, terá que refletir sobre uma proposta. Se tranqüila, significa que seus planos estão errados. Se a maioria dos convidados for estranha, significa que você vencerá. Se você conhecer todos, é preciso ter calma ao julgar determinada pessoa. Quanta coerência, não?A mídia proporciona também a obtenção de ajudas e respostas através de tarô, mapa astral, numerologia, grafologia etc. Mas, o campeão de audiência ainda é o horóscopo. O Veríssimo conta que, no início da carreira, fazia previsões para um jornal. Sem perceber ficou tão viciado que não saía de casa sem ler o que ele previra … para si próprio. Derradeira: na linha dois do metrô (só podia!) cidadã bem acima dos cem quilos senta ao meu lado. Do rádio de pilha anota a simpatia popular para arranjar emprego: Suba numa jaqueira, colha algumas folhas, faça chá suficiente para sete manhãs e beba em jejum. Antes de trocar de emissora, me pergunta: – Gravou? É tiro e queda! Dou uma olhada de lado no corpo farto e o imagino subindo na jaqueira. O tiro pode até sair pela culatra; mas a queda… Essa é certa!

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