INTERNET

                    Através do “boca a boca” e do “olho no olho” fui convencido a participar de várias manifestações populares, sendo a maioria durante o golpe militar. De três delas, pelo alcance que tiveram, guardo lembranças que pretendo contar com orgulho para a minha neta.            A primeira aconteceu ainda em Friburgo, nos tempos do golpe militar, quando o prefeito, que se “movia a álcool”, passou a conceber atos inexplicáveis à vida da cidade. Em represália, foi organizada uma passeata em que centenas de manifestantes desfilaram pelas ruas levando nas mãos galhos de cana de açúcar, numa clara alusão ao mal que acometia o mandatário da cidade. A carreira política do prefeito acabou ali.             A segunda manifestação vitoriosa que tomei parte foi no comício pelas diretas, realizado na Candelária, no Rio. A emenda que restabelecia as eleições diretas no país não alcançou o quorum necessário para a sua aprovação no Congresso, contudo obteve uma vitória espetacular sobre a Rede Globo. A emissora, que teimava em ignorar solenemente o movimento, foi obrigada a sucumbiu ao clamor popular e passar a incluir notícias dos comícios em seus telejornais com direito até a entrada de repórteres “ao vivo”.             Minha última participação em manifestações populares foi no movimento dos  “caras-pintadas”, fator preponderante para que Fernando Collor renunciasse à Presidência. Como não era mais estudante, a minha intenção era apenas assistir à passeata. Contudo, quando dei por mim, estava no meio da multidão gritando palavras de ordem contra o ex-presidente.              Este ano, fui convocado, por e-mails, para participar do “cala a boca Galvão” e para me juntar a passeata que os humoristas promoveriam contra a lei que proíbe que sejam feitas sátiras com candidatos durante a campanha eleitoral. Não fui a nenhuma e outro dia, ouvi no rádio, um dos organizadores estranhar os motivos do insucesso dessas manifestações, já que ambas foram convocadas pela internet, com a utilização de todas as ferramentas disponíveis.            O que o organizador não percebeu é que a culpa do fracasso foi justamente da rede de computadores. A Internet é fria e impessoal. Não tem sexo, religião, partido político ou time de futebol. Não tem carisma, não tem alma, ética, escrúpulos e, conseqüentemente, não tem sentimentos. Desprovida desses ingredientes,mesmo possuindo força descomunal, jamais exercerá uma liderança, como fazia o Chacrinha, que apenas “balançando a pança e buzinando a moça, comandava a massa e dava as ordens no terreiro”.