INUTILIDADES

    "Séculos atrás", em Friburgo, a primeira providência do novo comandante da fanfarra do colégio em que estudava foi acabar com a função do pratista na banda, dando-lhe, em troca, uma corneta, sob a justificativa de que: "O prato não faz falta nenhuma. É totalmente inútil".    Jamais iria me lembrar desse fato se não tivesse lido, na "Veja", uma matéria sobre os pratistas das orquestras. No texto, o repórter colocava que "se você freqüenta concertos de música erudita, talvez já tenha cismado com a figura do pratista.Enquanto a orquestra se esfalfa, ele está lá no fundo, impassível. A música segue. Os violinistas suam. Os clarinetistas ficam de rosto afogueado. Mas o pratista continua em seu repouso. De repente ele se levanta, ajeita o fraque, endireita as costas e toca os pratos uma vez.Isso é tudo. Em inúmeros concertos, o pratista não dá mais que uma pratada". E está pensando o que? Consideram-se o ponto de referência da orquestra e ganham entre 6 e 7 mil mensais. Para quem espera até o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven para fazer algum barulho e, muitas vezes, é abafado pelo coro, está bom demais.    E, como no meu caso, ler e pensar numa bobagem sempre me diverte e me remete a outras inutilidades, imediatamente foram desfilando pela minha mente várias outras situações que sempre me afligiram.   Que me desculpem as doceiras, mas qual a função dos cravos nos doces? Alegam que é para dar gosto,  para enfeitar, que tem gente que gosta de mastigar, etc. O que reparo é que todo mundo retira o cravo e joga fora. Também tenho uma implicância histórica com o glacê. Se não é para comer…Contudo, respeito sua importância "histórica" como acabamento de bolo. Mas, e aquelas bolinhas prateadas, duríssimas, que são jogadas em cima do glacê que, inadvertidamente, sempre mastigamos? Estão ali para quebrar dentes?    Qual a função do chuchu no ensopado com camarão? Dizem que é para "engrossar". Para dar substância. Para "quebrar" os sabores. Mas, chuchu não tem gosto de nada, é água pura. Camarão bem temperado se basta.   Como o Veríssimo, também tenho uma "birra" de longo tempo com a salsinha. Em todos os meus acessos de riqueza quando me assanhei a ir a um restaurante de rico, pedi pratos que vieram com ramos de salsinhas compondo, nas bordas, a iguaria servida. Sempre deixei a salsinha onde estava e comi o resto. Eu e todo mundo.  É como a segunda voz de dupla sertaneja (Deus nos livre!). Não serve para nada. Enquanto a primeira voz se esgoela, a segunda sorri e dá adeusinhos para a platéia. De vez em quando faz um huuuuu. Existiam João Paulo & Daniel e Leandro & Leonardo.  Daniel e Leonardo continuam aí, sozinhos e fazendo sucesso.    Conjunto de pagode (que Deus os mantenha longe!) são sempre formados por uns cinco ou seis membros. Um canta e o resto persegue. Mas, tem sempre um deles que não faz nada. Fica se jogando de um lado para o outro, não pára de rir e toca uma espécie de pandeiro que só tem a borda. Ou é o empresário do conjunto ou tem a chave do cofre. Deve ter a mesma "autoridade" do dono da bola nas peladas de futebol, pois, por pior que jogue, tem presença garantida em um dos times. Afinal, sem a bola, não tem jogo.      Talvez a maior inutilidade sejam os políticos. Mas, finalizo citanda a Débora Falabella que disse que artista não deve opinar sobre tudo. Concordo! Isso porque, o melhor sinônimo que encontrei para as opiniões da maioria dos membros da classe sobre grande parte dos assuntos, é a palavra que deu o mote e o título desta crônica.   

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