LEBLON

    Todo dia pela manhã cumpro um prazeroso programa ao chegar no trabalho: sob a inspiração de vários cafezinhos, travo animadas conversas com uma antiga conhecida de recente proximidade, sobre assuntos que podem viajar de São Gonçalo à Berlim ou fluírem sobre os hábitos higiênicos europeus, mas empacar na discussão da melhor maneira de se servir um café, se coado ou expresso. Algumas frustrações urbanas do final de semana fizeram com que eu morador do subúrbio e ela da Tijuca, iniciássemos a semana com o tema: “qual o melhor bairro do Rio para se morar”. A preferência ficou com o Leblon. Depois Ipanema. Para ela, o 3° lugar da Barra, também caberia nas duas primeiras colocações. Para mim não. Copacabana estaria absoluta no terceiro lugar na preferência. A Barra não é um bairro, e, tampouco – como pensa – uma cidade. Não é nada. Respira artificialmente. Move-se através de muletas e exprime-se em inglês. Possui até Estátua da Liberdade. E, como em todo campeonato que se preza, só houve premiação até o terceiro lugar. Parou aí.Não ousei perguntar-lhe, mas a minha inspiração veio por conta de uma crônica do João Ximenes Braga, no caderno ELA de o Globo, sob o título “Leblão”, em resposta a uma reclamação de uma leitora ao seguinte comentário: “… como todo mundo sabe, morador do Leblon é muito preocupado com a qualidade de vida do bairro. Agora, eu nunca soube de termas atrapalharem a vida da vizinhança. É um negócio cuja alma é a discrição e o silêncio. Imagino que os moradores do Leblon, fina flor da elite, estão é horrorizados com idéia de que vai ter gente fazendo sexo nas imediações. Já pensou?? Sexo! No Leblon! O que os vizinhos de Ipanema vão pensar?”.E prosseguiu o João: “… agora a gente não pode fazer mais piada nem com o Leblon?! Justo nosso bairro mais por cima da carne-seca? Ou estamos politicamente corretos demais, ou o lobby do Leblon é muito poderoso. Diante disso tudo, podem me bater, me xingar, mas vou exercer meu direito de fazer humor com o Leblon, sim!E vamos nós:1. Quantos moradores do Leblon são necessários para trocar uma lâmpada.Só um. Que vai contratar um morador da Rocinha para fazer o serviço.2. Um rabino, um padre, um pastor e um morador do Leblon estavam perdidos no deserto. Mas não rendeu nenhum diálogo engraçado, pois o morador do Leblon não deixou ninguém falar. Ficou reclamando que paga um IPTU altíssimo mas têm três pedras portuguesas soltas no caminho entre o Jobi e a Pizzaria Guanabara. 3. Três mães almoçam no Zuka. A italiana diz ao filho:-Come tudo senão eu TE mato!A judia diz: -Come tudo senão eu ME mato! A do Leblon diz: -Come se não vão pensar que eu não te ensinei a apreciar a alta gastronomia!4. Juquinha pergunta à Mariazinha: – Posso botar meu dedinho no seu umbiguinho? -De jeito nenhum! Moro no Leblon.Tá me confundindo com a Mariazinha de Copacabana?A possível constatação do modo “vivendis” do Leblon, podem me levar propor à minha interlocutora uma “virada de mesa” em nossa decisão sobre a escolha do bairro de preferência. Teremos motivos de sobra.Se só enxergam os vizinhos de Ipanema e Copacabana, olhando de cima para baixo, como irão encarar a presença em seus limites dos provenientes da Tijuca, mesmo com o bairro possuindo o “status” de ser o “zona sul” da zona norte?E quem, como eu, além de interiorano, ainda venho de Irajá? Por ter praticado o pecado capital de ter “morado mal”, não escaparei de ser condenado ao recebimento de “convites” de retorno às raízes. Nem o “Padre Pedro” conseguiria minha absolvição. A alternativa para viver a realidade do Leblon diariamente, vai se limitar a assistirmos o imaginário de “Mulheres Apaixonadas” toda as noites. Mas, como alegria de pobre dura pouco, “fizeram o favor” de me lembrar que a novela acaba sábado.

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