LEDA AZUL

    Tempos passados, houve na Rionet, várias intervenções sobre o jogo de futebol de botões, a partir de uma crônica do Carlos Eduardo  Novaes no JB, se não me engano. Mesmo com bastante atraso quero contar que fui proprietário do Santos F.C., que tinha sempre os mesmo adversários: o Flamenguinho, o Botafogo  e o Vasquinho. A disputa entre nós era ferrenha. Os times eram formados por botões feitos de casca de coco, tampas de relógio, osso, plástico, fichas de pôquer, galalite, acrílico ou madrepérola. No Flamenguinho, “atuava” o botão que era o sonho de consumo de todos: o Leda Azul. Um “jogador” de cor azul piscina, com dois furos no centro, “oriundo” de algum grosso casaco de frio, que, diziam, tinha sido comprado em Paris. Na verdade, ninguém sabia de onde viera e o porquê do seu apelido. A cada campeonato, novas regras e a efetivação de “milionárias” transações, sempre realizadas com “moedas do paralelo”. Valia de tudo: troca por figurinha carimbada, por selo raro, por revistinha do Carlos Zéfiro, por compacto de vinil do Chubby Checker ou por foto da Nara Leão.Certa vez, soube de uma “pulada de cerca” da namorada do dono do Flamenguinho. Vendo no fato a oportunidade de passar a contar com o Leda Azul no meu time, insinuei para o traído que só não revelaria a história se ele negociasse comigo o “passe” (posse) do botão.Com a ida do Leda para o Santos, exigi que o meu time jogasse com doze, já que seria um “crime” retirar algum botão do famoso “esquadrão” santista, cujo ataque ficou formado por quatro botões de côco (Dorval, Mengálvio,Coutinho e Pelé), um de madrepérola (Pepe) e o Leda Azul. O Botafogo exigiu a presença de “Quarentinha”, até então vetada, porque era um botão de galalite, com um chute capaz de jogar bola e goleiro de caixa de fósforos emchumbada para dentro do gol. Foi a abertura para o Vasquinho, escalar na sua zaga, suas “torres gêmeas”, Brito e Fontana, também de galalite, altos e largos, que dificultavam a visão dos atacantes adversários.O Flamenguinho quis apenas que a bola fosse de “ourinho”, papel laminado retirado dos maços de cigarros, o que facilitaria em muito a habilidade dos seus virtuosos atacantes de tampas de relógio: Joel, Moacyr, Henrique Dida e Babá. .O Botafogo foi campeão, seguido pelo Flamenguinho, o Vasquinho e o Santos. O artilheiro, mais uma vez, foi o Leda Azul. O carnaval estava chegando e uma morena que me deixou sonhando disse que poderia ser encontrada nos bailes noturnos.  Para arranjar o dinheiro dos ingressos revendi – “cash” – o Leda  Azul para o seu antigo proprietário que, de namorada nova, esquecera a desilusão anterior.A princípio fiquei meio pesaroso em ter me desfeito do meu grande ídolo. Mas, esse sentimento desapareceu logo depois do baile quando a levei em casa e ficamos por um bom tempo atrás do portão. Comparado aos beijos da morena, os gols do Leda Azul não deixavam nenhuma saudade.

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