MEUS BONITOS HOMENS FEIOS

    "Homem que é homem não acha homem bonito!" Essa estúpida assertiva, comum na minha adolescência, me prestou dois "favores": o primeiro, decorrente do uso desse chavão, afastava qualquer suspeita de que tendesse a ser "mulherzinha". E o outro foi que, desprovido dos atributos físicos convencionais – altura, corpo atlético e cabelos lisos e fartos – podia recorrer aos feitos dos "feios"  do cinema americano para estabelecer comparações com as minhas supostas conquistas:principalmente as do campo amoroso.    Antes disso, o primeiro "feio" que admirei foi um batedor da antiga Polícia Especial, tipo armário 2 x 2,   cara de poucos amigos, a uem apelidei de "Moreno". Nas obrigatórias passagens do governador do estado pela minha rua em direção ao interior fluminense, "Moreno", surgia imponente em cima da motocicleta, no seu impecável uniforme caqui, longas botas pretas, quepe vermelho e revolvão na cintura. Eu dizia que queria ser um policial como ele, mas, minha mãe, uma águia, afirmava que o meu negócio era possuir o poder de provocar, como o "Moreno", impensáveis suspiros femininos, mesmo sendo ele "feio daquela maneira".  Depois disso, pelas mãos do meu pai, descobri os heróis dos filmes de faroeste. Curtia uma admiração inconfessada pelo Rory Calhoum, um ator de segunda, e, principalmente, pelo Marlon Brando, mesmo que tenha encarnado poucos papéis de "mocinho". Mas, alardeava aos quatro ventos que os meus ídolos eram os feiosos John Wayne e o Gary Cooper, ambos capazes de acabar com a carreira de bandidos horrorosos da estirpe do Jack Palance ou do Lee Van Clif, para quem, se o xerife fosse um "almofadinha", eu dedicava a minha torcida. Também invejei os heróis dos filmes épicos. Num deles, o Taras Bulba, os "irmãos" Yul Brynner e Tony Curtis disputaram o amor da lindíssima Christine Kaufmann. Ganhou o bonito. Por similitude, com diria um conhecido, torci pelo feioso careca Yul Bryner e fiquei mais decepcionado ainda quando soube que, na vida real, o Tony Curtis, logo após as filmagens, se casou com a atriz alemã. Mesmo que tenha falecido, sobre o Charlton Heston, o grande herói épico, não mudo a opinião: era um canastrão, racista e reacionário.Depois admirei Steve Mcqueen. Nunca reparei se era feio ou bonito. O que me encantava era o seu jeito de anti-herói calado, rebelde, bem acompanhado,cheio de ação, das fugas de motocicleta e ás do volante.   Paul Newman e Robert Redford, ao passearem de bicicleta com Catherine  Ross, ao som de "Raindrops Keep Falling" on my Head", em Buth Cassid, provocaram uma abertura no meu exacerbado machismo: admiti que pudessem não ser bonitos, mas eram charmosos. Mas, ainda nessa época, era proibido, sob qualquer pretexto,  admirar o Rock Hudson. Era bonito demais para ser de verdade.    Já Sean Conery, na pele do James Bond, classifiquei de atraente e sedutor.  Exultei quando houve a revelação de que a cabeleira do espião, com "licença para matar", que não desalinhava nunca, não passava de uma peruca para esconder  sua avançada calvície.  Exaltação com sabor de vingança de um futuro careca.      Sem nunca ter assistido Marcello Mastroiani, desdenhava dos boatos de que  a maioria das atrizes com quem contracenou havia se curvado ao "Deus da Beleza".Bastou ver o "Belo Antonio" para me render às evidências. Mas, como quem  nasce para "machão" custa a perder a pose, até pouco tempo atrás sustentava que não achava o italiano bonito, apenas gostaria de ter faturado as mulheres que se jogaram a seus pés. Como se fêmeas da linhagem da Sofia Loren, Claudia Cardinale e Virna Lisi concedessem suas graças a simples mortais.