MEUS QUERIDOS AMIGOS

     Recebi uma mensagem do diretor regional da ASBAC no Rio, Wagner D”Oliveira, estranhando que não tivesse escrito alguma coisa sobre a minissérie global “Queridos Amigos”. Respondi-lhe que não a assistia porque a série, que não tinha horário definido, só entrava no ar após o BBB, tortura a qual me recusei submeter. Como havia gravado o programa, o Wagner não se fez de rogado e enviou-me os CD”s. Assisti e, sob a minha ótica e emoção, considerei “Queridos Amigos” uma obra-prima. Atores escolhidos a dedo. Diálogos impecáveis. Irrepreensíveis ambientações e detalhes de época. Até os nomes atribuídos a algumas crianças foram um “achado”, como os gêmeos Caetano e Gil e Luiz Carlos e Rosa, em homenagem ao Prestes e a Rosa de Luxemburgo.  A história, que se passou no ano de 1989, teve como pano de fundo a ditadura militar, contou a história de um grupo de amigos, que se denominava “família”e que se reuniu depois de muito tempo.  O responsável pelo reencontro foi Leo (Dan Stulbach), que descobriu que estava doente e que tinha pouco tempo de vida. Depois do encontro, a notícia de que Léo morrera num acidente.Contudo, através de aparições pontuais para uns e da remessa de presentes emblemáticos para outros, Léo, sob a égide de “nada é o que parece ser”, deu sinais que estava vivo. A partir daí, diversas situações adormecidas, como traições, segredos, homossexualidade, fobias, conflitos e paixões, afloraram e ganharam um desfecho. Assistir a minissérie me fez pensar que, em contraposição ao que escondiam os porões da repressão, os “anos de chumbo” foram os mais ricos da história do país. A melhor fornada cultural e política brasileira emergiu paralela ao golpe militar.   E me fez lembrar, através dos perfeitos figurinos dos anos 80/90 e da fantástica trilha musical que, mesmo no fim da “festa”, ainda participei de passeatas na Rio Branco, do comício das diretas na Candelária e da assembléia que deliberou a primeira greve dos bancários após a chamada “abertura”.  “Queridos Amigos” talvez seja a inspiradora de uma idéia que, desde que soube de sua possibilidade, não descruzo os dedos na torcida pela sua realização.Em plena ditadura, no quintal da minha casa, em Friburgo, 12 adolescentes vizinhos e amigos, fundaram um clube, o “Sete de Ouros”, onde basicamente eram promovidos “arrasta-pés” e jogos de cartas. A política passava longe. O que desfilava eram namoros, paixões, ciúmes e amizades. Os “titulares” eram 5 moças e 4 rapazes. Dois amigos e eu éramos “reservas”.  Minha irmã, uma das 5 moças, e que ainda mora na casa onde o “Sete de Ouros” resiste com outro status, quer promover um encontro dos membros do clube, mesmo sabendo de antemão que dois dos “titulares”, uma “menina” e um “menino”, falecidos, não estarão presentes.   É possível que do encontro não surjam desdobramentos que comprovem, como na minissérie, que “nada é o que parece ser”. Contudo, tenho certeza de que todos perceberão que uma das condições essenciais para se viver plenamente é a de possuir amigos. Queridos amigos.

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