NO TEMPO DAS BICICLETAS

           Conhece a Soninha? É aquela que, além de vereadora em São Paulo, apresentadora da ESPN, colunista da Folha-SP e participante do programa “Saia Justa” na TV à cabo, ficou super-conhecida por revelar, tempos atrás, para uma revista semanal, que era usuária de  maconha.         No início de agosto, revelou no seu “blog”, que um dia foi ao dentista de moto e voltou a pé. Sua moto havia sido roubada. Depois disso, andou falando que tem realizado verdadeiras maratonas de metrô e ônibus por causa dos constantes deslocamentos que precisa realizar, em decorrência das suas inúmeras atividades. E, outro dia, contou que ao realizar uma dessas “andanças” ao centro de São Paulo, foi  de bicicleta.          Pois, deve ter deixado muita gente perplexa! Ninguém utiliza mais anda mais esse tipo de condução nos centros das grandes cidades. E olha que, nesses locais, a toda hora, como por encanto, surge gente de todos os tipos, cores e raças da grande diversidade de veículos de locomoção existente. Mas, de bicicleta, ninguém. Sequer, são encontrados aqueles teimosos corredores que treinavam nas grandes avenidas centrais.          Mesmo nos bairros, de forma mais comum, só vejo “bicicletando”, crianças no dia 26 de dezembro e um ou outro adolescente fora do contexto nos demais dias do ano. Os "normais" andam de moto.          Ainda na minha juventude, lá na “terrinha” e, creio que, também nos demais lugares, possuir uma bicicleta não tinha a mesma importância de se possuir um automóvel, mas, possuía o seu glamour. Havia proprietários que compareciam aos eventos dos finais de semana, como a missa dominical, todo orgulhoso e com a melhor roupa,  montado na sua “máquina”. Eram tratadas a pão-de-ló. Conservadas pintadas, engraxadas, brilhando! Algumas portavam até placa de identificação. Tinham selim acolchoado com escudo do time da preferência e dois retrovisores no guidom. Afixada no banco do carona, tremulava uma bandeirinha do Brasil. Os pneus eram alvinegros, a bomba de encher ficava pendurada no esquadro para qualquer eventualidade. Raramente mudavam de donos, apesar de serem bem cotadas nas transações. Quando acontecia uma troca de mãos, era emitido um documento comprobatório de nenhuma legitimidade oficial. Valia a confiança.           Aprendi a andar de bicicleta em tempo recorde. Como meu pai não conseguia me ensinar, minha mãe alugou uma bicicleta e me levou para uma alameda. A princípio me ajudou no equilíbrio, mas, logo depois, apenas me empurrava, advertindo: – “é melhor aprender rápido, do contrário não vai sair do chão!’.          Mas, a lembrança mais significativa que tenho e que até já contei por aqui, foi que após um futebol de rua, deitei para descansar na grama que formava a calçada, sem notar que uma vizinha de grande porte, branca, sardenta e entrada nos anos estava aprendendo a andar de bicicleta.  Do atropelamento de que fui vítima, soube mais tarde, apenas, que ela subiu pela minha barriga e caiu no chão. Traumático foi o que vi depois: envolta na saia repousada na grama e caída de costas, as pernas da mulher, esticadas para cima, formavam um simétrico L, mostrando todo o “panorama” dos joelhos até a cintura. Melhor seria se os segredos desvendados naquele momento tivessem permanecido invioláveis.