NÓS, JORNALISTAS, ESSES URUBUS DE CARNIÇA!

    “Armados” de câmeras, blocos de anotação, gravadores, máquinas fotográficas e celulares, um batalhão de cinegrafistas, repórteres e fotógrafos, acampou numa sexta-feira deste último agosto aqui no “730”. Chegaram antes das oito e, tendo como combustível água e café, aqui permaneceram durante horas a fio. Durante o dia, lutando pelos contatos com as redações; contra as tentativas de cerceamento do seu trabalho e pela infinita espera, prostravam-se cansados pelas escadas, não sem revezarem-se nas infrutíferas tentativas de colherem algum pronunciamento do presidente do BC e de alguma inconfidência dos antecessores sobre o atual. O alvo, no entanto, era a anunciada chegada do titular da Fazenda que se fez presente apenas depois das 18:00h. A autoridade passou rápida pela porta oposta às suas presenças. O fato causou uma desabalada correria em direção ao ministro na tentativa da obtenção melhor foto, da pose mais significativa, do pronunciamento mais bombástico e provocou observações do tipo: “que profissão horrorosa! Parecem urubus atrás de carniça!”. Entretanto, a imprensa foi ignorada.O Joaquim Ferreira dos Santos, de O GLOBO, parecendo ter ouvido as injustas recriminações, contou na coluna da segunda-feira imediatamente posterior o que representa a profissão. Iniciou filosofando: “dizem que jornalista é um sujeito não sabe diferenciar um tombo de bicicleta e o ocaso da civilização – e eu não entendo porque verdade tão evidente é dita em tom de piada”. Depois lembrou: “vi a Sandra Bréa nua num camarim de teatro do Shopping da Gávea e joguei pôquer com Omar Shariff. Avaliei com o Marcello Mastroianni o mulherio de Paraty durante as filmagens de Gabriela e me ajoelhei embasbacado numa mesquita azul em Istambul. Eu não estava por perto quando caiu o muro de Berlim, porque estava encarregado de cobrir o que acontecia nos inferninhos de Copacabana. O Raul Seixas desabou bêbado em cima de mim tentando me explicar o “Rock das Aranhas” e entrevistei Vinicius de Morais enquanto ele tomava banho numa banheira. Falei com Drummond, visitei Cartola na Mangueira, acompanhei Glauber Rocha em Ipanema. Fiquei engarrafado no Rebouças com a Vera Fisher”.A profissão de jornalista é tão fascinante que, até eu, que de vez em quando a exerço aqui no BC, tenho o que contar. Para um só evento, “O Humor na Economia” (cancelado) “sobrou” para mim contatar humoristas, escritores e chargistas. Fui “recebido no escritório” do Jaguar – um bar da Rua Riachuelo – e instado a acompanhá-lo numas cervejas quentes, comendo como “tira-gosto”, ovos cozidos de casca rosa. Tomei “chá de espera” na sala do Chico Caruso, aguardando o encerramento de uma eterna discussão sobre a curva de uma caricatura com outro chargista. Recebi vários telefonemas do Miguel Paiva cobrando a devolução dos desenhos que já havia sido providenciada “há horas” e "recibados" por ele próprio. João Ubaldo Ribeiro negava-se a me atender, mas ao intervir num telefonema que trocava com o seu filho, deixou perceber que ficava ouvindo as conversas na extensão. Tomei café e joguei sinuca num mesmo móvel na casa do Liberati do JB: a mesa da sua “sala de estar” possuía as duas finalidades. Jô Soares, afetadíssimo e com estudada voz de enfado, fez exigências dignas da Lady Di e pediu cachê de estrela internacional. Fui devidamente autorizado a mandá-lo ir para onde eu achasse que merecia.  Também já senti o gosto do que é ser censurado e o de perder textos inteiros. Ser “escalado” para escrever pelos menos duas laudas sobre assuntos que desconhecia e que, se editados, caberiam em cinco linhas. Continham tantos absurdos e disparates que, depois de usados, apressava-me em destruí-los. Gastei muita sola de sapato procurando em cartões de natal de papelaria, que pudessem servir como fontes de “inspiração” para mensagens oficiais de final de ano. Obtive vitórias: recebi de conhecida por e-mail, a crônica sobre Che Guevara, que ela havia recebido de uma amiga, cujo marido que trabalha na BC em São Paulo havia lido e iniciado a corrente de retransmissões. Minha amiga não notou que fui quem escreveu a matéria. Experimentei “derrotas” inesquecíveis, como aquela em que atropelei todo mundo para realizar uma entrevista – previamente acertada – com o Chico Buarque, após uma “pelada” que o compositor iria jogar no Campo da ASBAC e, de maneira inconseqüente, perdi o compromisso.Posso perdoar as recriminações aos meus colegas de diploma universitário se os seus detratores após lerem essa defesa, passarem a considerar que, a profissão, em muitas ocasiões, reúne condições de se tornar a mais empolgante, divertida, triste e perigosa das aventuras. Como também concordarem com a essência do que disse o Joaquim, “tão bom, ou melhor, do que ter visto e vivido é poder e saber contar depois. Com certeza sexo costuma ser melhor, mas um texto com fecho de ouro, não é prazer que se empurre para fora da cama”.