O MUNDO ESTÁ ACABANDO

            O senador José Sarney contou, na Folha-SP, que o seu primeiro fim do mundo aconteceu quando era criança no interior do Maranhão: “… Era uma vaca que morria de mordida de porco, uma galinha que cantava como galo e não faltou quem tivesse visto no meio do campo um dragão botando enxofre pela boca, num rolo de fumaça que era absorvido pela escuridão.”              Devido à minha formação católica, que previa o fim do mundo em fogo, durante a infância “bolei” infalíveis estratégias para ficar para semente. Contudo, todas as minhas teorias de eternidade eram destruídas pelo pragmatismo da minha mãe de que não sobraria nada e nem ninguém. O consolo era saber que os puros iriam para o céu. Os pecadores arrependidos estagiariam no purgatório e os juramentados iriam direto para o inferno.         Não sei como é hoje, mas a gradação máxima dos pecados era o mortal. A seguir, o venial. O mais brando, o original, era, paradoxalmente, o mais complexo, pois só podia ser expurgado com o batismo. Traduzindo: ou se era católico ou pecador. Os parâmetros para a classificação das culpas variavam de acordo com a intensidade da entrada no submundo dos pecados capitais: Adão ter desejado Eva, pecado venial. Adão ter faturado Eva, pecado mortal.              A purificação podia ser obtida com a confissão, em confiança, antes da missa de domingo, ao padre de plantão. Para se alcançar a absolvição era necessário o pagamento de penitências em Ave-Marias e Pais-Nossos. Cumpridas as etapas, podíamos comungar.             Julgando que ir para o céu era caso perdido, meu principal problema não era apenas o de queimar no fogo do inferno. O que mais temia era o convívio eterno com o Diabo e o Belzebu.            Como o purgatório não era uma alternativa tão ruim assim, passei a antecipar-me às penitências que fatalmente seriam impostas, pedindo para ser escalado como carregador do andor da imagem que estivesse realizando uma turnê de novenas pelas residências da paróquia.             Por bom tempo, deixei de perder o sono com a sombria previsão de que o mundo acabaria em fogo. Mas, de uns tempos para cá, voltei a desconfiar que o fim está próximo ao saber que, também, os estudos científicos corroboram com o que “está escrito”, ao preverem que o aquecimento global incidirá em desastres naturais.             O ex-presidente Sarney também crê que… “agora é mais sério. (…) É o Vaticano (…) que diz que estamos no fim. Fez um documento (…) com os 10 Mandamentos dos Motoristas Católicos.A igreja perdeu a fé na vida eterna. A salvação está em evitar desastres de automóvel e em algumas recomendações. Por exemplo, “não use seu carro para uma ocasião de pecado, fazendo sexo inseguro" e "evite rezar ao volante".      Também acho! Os sinais do “fim dos dias” estão aí: geleiras derretendo. Uma lagoa secou no Chile. Nasceu uma zebravalo… E a Igreja, quem sabe por culpa de alguma estripulia do motorista do papa-móvel,  preocupando-se com uma namoradinha básica no automóvel. É o fim do mundo!