O PERIQUITO

    A porta se abriu de um supetão e Daniela, a mensageira, passou como um furacão pelo corredor do setor anunciando, com autoridade em voz alta:- A Jaqueline vai soltar o periquito! Ninguém quer ficar com ele não?Alguém tem que ficar! Quem vai querer? O bichinho não sabe voar, vai morrer…!Ante a “ameaça” de ter que adotar o pássaro, todo mundo abaixou a cabeça e fingiu estar trabalhando freneticamente. Nesse momento lembrei que possuo um viveiro grande em casa que abriga apenas dois “moradores” e não vi problemas em ficar com mais um. Antes do “aceite”, pedi a Daniela para que tomasse uma água, sentasse um pouco e contasse a história com calma: – O passarinho é da Jaqueline, a mensageira aqui da frente. Ela está morando sozinha e como não quer deixá-lo sozinho, trouxe o bicho para cá e o prendeu dentro de um armário. Em gaiola, aqui dentro, você sabe, não pode… Aí, ela está dizendo que vai soltá-lo pela janela…   Ele não sabe voar… Vai morrer… Ele sempre foi criado preso…   – Vamos lá ver! Se for o caso, eu o levo para minha casa. – Falei com firmeza.Na sala em frente, estrategicamente, abri uma das portas do armário um pouquinho, enfiei o braço e não tendo como enxergar o interior fiquei tateando inutilmente por um bom tempo. Ante ao mau resultado das primeiras buscas, mudei a tática: abri uma das bandas do móvel e com a Daniela e a Jaqueline fazendo “paredinha” nos flancos, passei a perseguir o bicho, agora à minha vista. Porém, levei um “baile” até segurá-lo. Quando consegui, ele não teve dúvidas: “bicou” o meu dedo e apertou até sangrar. Contudo, para provar a minha masculinidade ante a duas damas, fingi que não estava sentindo nada. Ensaiei até uma  risada pela situação… De retorno ao setor, passamos a procurar uma caixa de sapatos para acomodar o periquito e conseguir livrar o meu dedo, o que deve ter demorado uns dois anos.De tardinha, olhei para a caixa e fiquei matutando qual seria a melhor maneira de regressar para casa. Como não gosto de “viajar” nas vans, pensei no metrô, mas logo vi que seria impraticável: a ave seria esmagada! Se sobrevivesse ao aperto da Estação Uruguaiana, certamente, não resistiria às cotoveladas, puxões, abafamento e empurrões comuns na estação do Estácio. Decidi, então, pegar um ônibus “tarifa A” na Presidente Vargas, saltar na Avenida Brasil, atravessar para o “outro lado” e, finalmente, pegar um “circular” para casa. Estava tudo resolvido!O “tarifa” demorou e quando chegou havia muita gente para embarcar. Protegi a caixa do pássaro no peito, “armei” cotovelos em riste e encarei o sufoco de conseguir um lugar. Ao reinar o silêncio no ônibus, bem naquele momento em que todo mundo quer tirar um cochilo, o “danado” desandou a bater com as asas na caixa, fazendo um “barulhão”. Retribui com um sorriso amarelo de desculpas a cara amarrada dos passageiros que me fulminavam com o olhar.Consegui tranqüilizá-lo apenas no meio da Avenida Brasil. Aí então é que reparei que estava caindo um aguaceiro que não apresentava indícios de estiar tão cedo. Quando saltei é que me “toquei” que a parada não tinha abrigo. Sem saída, corri para baixo da passarela e lá junto a várias pessoas fiquei esperando a chuva amainar. Entretanto, ao contrário do que acreditava, cada vez caía mais água e estranhamente foram todos, um a um, desistindo de esperar a estiagem. Deduzi que ninguém mais se arrisca a ficar sitiado num local ermo com estranhos e fiz o mesmo. Abriguei o passarinho, encarei a passarela descoberta e cheguei do outro lado todo molhado, mas, mantive o pássaro seco!”Sorte” é que o “circular” não demorou e logo depois saltei no ponto da minha casa. Contudo, como o toró não diminuiu, a minha rua é residencial, ou seja, desprovida de marquises, da “parada” até a minha residência foram quinhentos metros de água sobre o corpo. E para piorar, o periquito que havia voltado a ficar em silêncio, resolveu voltar a dar o ar da graça e começou a fazer outra barulheira danada. Com medo que alguma coisa tivesse ocorrido com o bicho, resolvi enfrentar novamente a chuva e, é claro, agasalhando a ave debaixo do meu corpo.Encharcado já na área da minha casa e preocupado, fui até ao viveiro e “apresentei” o  periquito à sua nova casa. Imediatamente, os antigos moradores sinalizaram-lhe que a convivência seria difícil. Então, mudei a estratégia: coloquei o “chegante” num alçapão, que pendurei no viveiro para que pudessem se acostumar com as respectivas presenças, enquanto ia me enxugar. Como ao trocar de roupa no quarto ouvi a voz da minha filha Mariana na área, perguntei:- Viu o que trouxe? … Olha a surpresa que está dentro do alçapão pendurado no viveiro…- Trouxe o quê pai?… A porta do alçapão “ta” aberta e não tem nada lá dentro…