O VILÃO

    Minha crescente ausência das ruas por causa da violência e a limitação dos textos a 30 linhas não são os meus únicos confinamentos. A condição de único homem de uma casa dominada pelo sexo oposto me impõe cerceamentos gastronômicos, inspirados no alimento que as indústrias da saúde perfeita e dos regimes – em conluio – elegem como o vilão. Há algum tempo a divulgação de que a ingestão do ovo causava mais males do que os ACMs juntos levou minha esposa a determinar que os seus lugares na tribuna de honra que possuíam na porta da geladeira passassem a ser dos tomates. Durante bom tempo não pude colocar em prática um dos mais sábios ensinamentos deixados pelo Sérgio Porto, de que, qualquer comida, pode ser melhorada se ganhar um ovo estrelado em cima. A absolvição do ovo permitiu que a vingança fosse executada com requintes de crueldade. Quando percebia que a comida não era "essa bola toda", as acompanhava reparando um arroz com ovo. Uma perfuração com o garfo na clara permitia a visão do "espetáculo" da gema escorrer até pintar o arroz de amarelo. A apoteose era o saboreio, com ar de quem estava diante do manjar dos deuses, da borda do ovo que, frita, se assemelha a uma peça de renda, cujos desenhos foram bordados com fios de ouro (by Veríssimo). A condenação da manteiga, sob a desculpa de que entupia as veias e a substituição pela margarina foi votada em rito sumário pelo segmento feminino familiar. Sempre me neguei a engolir aquela química sem sabor e da cor de um desmaio. Ainda não indultaram a manteiga, mas, pelo menos, já admitem que, pela densidade, a margarina é quem provoca enfarto. Nunca fui de peixe. Contudo, a alegação de ser bom para a saúde era irrefutável. Eu e muita gente fomos salvas por aquela história da contaminação do salmão. "Hábeas corpus" perfeito para fugirmos dos restaurantes japoneses e voltarmos para as churrascarias. Gozado! Lá em casa, nem a doença da "vaca louca" e nem a gripe "aviária" nunca foram notícia.  Nem preciso dizer que açúcares, frituras, gorduras e carboidratos são presenças tão indesejadas nos meus domínios como o Maluf, o César Maia e o Roberto Jefferson. Existem vetos até para alguns substitutos: adoçantes, só sem aspartame. Pães integrais, de preferência os de cenoura, que não contém glúten, o vilão da moda. Pergunto: quem, por mais "natureba" que seja, iria "para o sacrifício" de comer um sanduíche de pão de cenoura? E se o bife for de soja? Enfim, sempre fui motivado a seguir dietas pela preservação da saúde. Mas, é a primeira vez que tomo conhecimento de alguém que entre em dieta zero pela manutenção de uma pré-candidatura política. O que estranho é que o sentimento geral de apoio – até o fim – da greve de fome do Garotinho, não conta com o apoio da Dona Rosângela Matheus, a apaixonadisssima. Ué!? Quando casaram não juraram amor por toda a eternidade? Tem que ir nessa Governadora! Pelo menos para perder uns quilinhos… Tá precisando, heim!?

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