PARA NUNCA MAIS VOLTAR

            Semana passada houve a lembrança do aniversário de 40 anos do golpe militar. As imagens, fotos e textos divulgados levaram-me a lembrar -cronologicamente – dos fatos daquela época, em especial o que ocorreu na noite de 31 de março de 1964 e nos meses subseqüentes.        Através da vidraça da janela da sala onde assistia a uma aula de História do Brasil do curso ginasial em Friburgo minha irmã me indicou que precisava falar-me urgente. No pátio, lívida, fez a comunicação: “- João Goulart deu o golpe”. A informação contradizia o ar que se respirava.        As observações de que a noite estava muito mais negra e as ruas excessivamente solitárias fizeram com que a minha “ficha caísse”: Presumi: “- Jango não deu, sofreu o golpe”.         No 1º de abril, “dia da mentira”, os jornais noticiaram o retorno ao “estado de direito” estampando a foto do banqueiro Magalhães Pinto, desfilando á frente de tropas militares pela Presidente Vargas no Rio, ao tempo em que brandia uma espada com a autoridade de um general.            Nos anos seguintes tudo o que se soube e foi visto, teve alguma cortina como biombo. E infinitamente maior foi a intensidade do que ficou mudo, escondido, disfarçado, cego ou enterrado. O golpe, quando vinha a público, era para mostrar a sua truculência: esfarelou o Congresso; cerceou as instituições democráticas; censurou a imprensa e as manifestações culturais; mutilou o processo de eleições diretas e “regulamentou’ através de atos institucionais a força e a violência das suas atitudes”.  “Prendeu e arrebentou”. Cassou.Torturou. Caçou. Deu sumiço. Exilou. Matou.Deixou como herança econômica uma incalculável dívida externa fomentada por inúteis projetos megalômanos; o recrudescimento da inflação; o incentivo a cartelização; a traiçoeira correção monetária e entre outras anomalias, uma inacreditável desordem fiscal.Vesgo estrategicamente, não promoveu as reformas estruturais que, num regime de exceção, poderiam ter sido realizadas num estalar de dedos e não teve cuidado com a educação básica. Cego quanto ao futuro e na contramão do restante das nações, multiplicou a dívida externa em plena crise do petróleo de 73 quando o preço do barril saltou de dois para doze dólares, fato que fez com que o mundo nunca fosse o mesmo. O golpe de 64 teimou em vender – inutilmente – a imagem da “ilha prosperidade” a quem não estava investindo sequer em uma agulha usada.            Como disse a Miriam Leitão em O GLOBO “… O arbítrio é um mal absoluto. Não há lado bom no regime que foi instalado pela força há 40 anos e TOMOU do Brasil 21 anos. Que as futuras gerações jamais se esqueçam disso”.         Peço licença para acrescentar: “… lições que precisam ser relembradas a muita gente da geração que sofreu com os anos de chumbo. Tenho percebido muita gente “saudosa”. Não sei se por omissão patriótica. Falta de cultura histórica. Alguma falha de caráter. Tudo isso. Ou não!