HOJE FALEI COM UM ANJO

    Felizmente hoje eu tenho uma breve historinha, mas daquelas que quando se conta é difícil segurar a emoção.  Diante de tanta violência nesta cidade, a gente já desconfia, muitas vezes injustamente, de quem se aproxime de nós estando mal vestido, ou caracterizado mesmo de mendigo. Na verdade é de paletó e gravata que se “fantasiam” tantos malfeitores, especialmente na vida pública deste país. Eu voltava de Copacabana no táxi do meu bom e fiel amigo Tabajara (que nada tem a ver com a turma dos Casseta e Planeta). Ele parou na esquina da Aníbal de Mendonça com a Visconde de Pirajá para eu e minha amiga Marlene saltarmos. Estávamos com pressa pois ainda íamos resolver uns 3 assuntos aqui em Ipanema. Ao tentar sair do carro tive alguma dificuldade com minhas pernas grandes. Do lado de fora, pelo vidro, percebi a presença de uma garotinha cujo braço esquerdo era defeituoso, torto para trás, mas que tinha um rostinho muito bonito e um olhar tão terno. Ao me ver em dificuldade ela se aproximou devagarinho, com um sorriso angelical. O amigo Tabajara, cauteloso com tanta violência que anda acontecendo por aqui, de adultos e de menores, estes, geralmente usados por adultos, alertou-me: “Sêo Simões, atenção, cuidado, hein, nunca se sabe… cuidado com a carteira, amigo.” Eu disse para ele não se preocupar e confesso que aquele olhar não me inspirava nenhuma desconfiança, o que depois se confirmou. Quando consegui abrir mais a porta do carro, a menina se aproximou  e, usando o seu braço esquerdo, único que era normal, ela insistiu no sorriso e me falou: “O senhor pode segurar em mim que eu lhe ajudo.”  Tendo eu um metro e oitenta e estando na casa dos 90 quilos, receei que ela não me agüentasse e até pudesse se machucar. Mas, não, ela me ajudou mesmo, e acabei saindo do táxi, um tanto pela minha força e jeito e ajudado pela boa vontade imensa daquela garotinha. Brinquei com ela: “Filha, esse veio anda meio desajeitado, né?” E acrescentei: “Sabe, você é muito bonita e um anjo de pessoa. Obrigado, filha. Foi muito bonito o que fez por mim.” Pensei que ela me fosse oferecer alguma coisa para comprar, mas reparei que ela não portava nada. Perguntei: “O que você quer, filha?”E ela, na sua simplicidade, apenas respondeu: “Nada não.” Insisti: “Você não está vendendo bala, chiclete ou coisa parecida?” Ela repetiu o não, e então perguntei se ela não queria nada, já que me ajudara. Sempre sorrindo, e com uma voz tão meiga, a garotinha, falando baixo, me disse:” Se o senhor puder me ajudar, eu aceito.” Retirei 2 reais da carteira e entreguei a ela. Ouvi um obrigado que me arrepiou todo. Ela guardou a nota com a mão esquerda, única que podia usar, eu sorri para ela e me virei de costas. Dei dois passos e resolvi olhar novamente para trás.  A menina continuava olhando para mim, e, com o mesmo sorriso angelical, e com aquela voz fraquinha, ela falou um pouco mais alto: “Deus proteja o senhor”. A emoção subiu rápido tanto em mim quanto na amiga Marlene e foi difícil deixar de sentir os olhos ficarem meio molhados. Afinal, meu amigo Tabajara se enganara, pois em verdade eu fora ajudado e falara com um anjo. Eles ainda existem, amigos. Cuidado para, no preconceito e no medo, não os maltratarmos.