Perdão Leitores

    Com esse título o jornal O Globo destacou, na primeira página, do dia 7 de junho, a atitude do deputado Silvio Costa que se virou para o senador Pedro Taques numa sessão da CPI do Cachoeira e, dedo em riste diante das câmeras de TV, exclamou em alto tom de voz: -Você é um merda! Filho da puta.Alguns palavrões como sacanagem, bosta, esporro, puto, passaram a fazer parte da linguagem cotidiana. Estão presentes nos filmes, novelas e rádio. Até a alguns anos atrás, o palavrão tinha passe livre apenas nas peças teatrais, onde todo mundo se contorcia de rir com a “boca suja” da Dercy Gonçalves. Aliás, no teatro, a forma de um ator desejar sorte para o outro antes de começar a peça é dizer: “merda para você”. O outro responde: “merda para você também”. O que é, vamos ser sinceros, uma inominável babaquice.Mas a minha maior perplexidade com o palavrão está no fato de constar naturalmente do linguajar das meninas de 15 a 20 anos, estejam elas no metrô, no ônibus, nos shoppings ou nas filas de banco. Em dez palavras, cinco são obscenidades de todo tipo, tamanho, peso e magnitude. No meu tempo, mulher praticamente não falava palavrão em público.Quando o jornal “PASQUIM” ainda era vivo, uma das suas entrevistas mais famosas foi realizada com a finada Leila Diniz. Normalmente, da boca da atriz jorrava uma profusões de impropérios dos mais variados em qualquer conversa mais descontraída. Uma vez o jornal publicou uma entrevista com ela na íntegra e essa talvez tenha sido uma das edições que mais tenha feito sucesso na vida do jornal. Só que todos os palavrões de Leila Diniz foram substituídos por asteriscos.Palavrões bem colocados já fizeram parte da literatura na boca de mulheres, todavia sempre de forma esporádica. Na obra do genial Nelson Rodrigues, onde o palavrão comia solto, as personagens femininas jamais falaram um palavrão gratuitamente, nunca pronunciaram termos chulos sem que servissem à força dramática e poética dos textos.Contudo, mesmo que em público e dito por mulher, um palavrão pode ter valor incomensurável e representar a indignação geral: viajava no metrô cheio e com várias pessoas em pé. No vagão predominava um grande burburinho de conversas paralelas. Sentado, havia um sujeito comendo um doce. A cada dentada ele desembrulhava um pouquinho mais a iguaria. Muita gente acompanhava seus movimentos. Quando terminou, não conversou: embolou o papel da embalagem e jogou no chão. Uma senhora de meia idade, bem vestida, com pinta de muito distinta e educada, fuzilou o cidadão com o olhar e, em voz alta, acentuando cada sílaba, emitiu um harmonioso: FI-LHO DA PU-TA!O silêncio que se fez, representou uma aprovação unânime ao sonoro, preciso e bem colocado palavrão da mulher. Entretanto, o que mais me chamou a atenção, foi ter sido pronunciado com toda classe e recheado do glamour que a ocasião exigia.

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