PROMESSAS

    Eu tinha tudo para me tornar um religioso fervoroso. Entre ainfância e a adolescência, nos meses de maio, várias ladainhas em louvor deNossa Senhora, foram rezadas na minha casa. Mas o que eu gostava mesmo era dasnovenas, rezadas em diversas casas das proximidades. O transporte da imagementre as residências era realizado em procissão pelas ruas e, geralmente, euera um dos condutores do andor. Todo paramentado de branco, ia entre contrito eorgulhoso, imaginando a inveja que impunha aos meus amigos ao me veremcarregando à santa.          Depois, estudei em colégio católico emtempo integral, onde, além das matérias tradicionais, havia o ensino dareligião. Antes e depois de cada aula rezávamos a Ave-Maria. As manhãs eramreservadas para estudo. Mas, havia “abertura” para a leitura das revistas emquadrinhos com histórias de santos. Além disso, aos domingos, assistíamos amissa na capela do colégio.          Depois que saí do educandário, me afasteide qualquer religião e só há poucos anos revi a decisão. Habitualmente, assegundas-férias, vou ao oratório de uma igreja católica para acender uma velade agradecimento.          Só que, comumente, fico na dúvida se omeu gesto surte o mesmo efeito do que o realizado pela maioria das pessoas, quecompram e acendem vários pacotes de velas, algumas do tamanho “família”. Seique o que vale é a intenção e que tanto faz acender uma ou de cem velas. Mas,sempre fico com a impressão que essa gente tem muito mais a fazer ali do queeu.         Há quem vá reclamar das tratativas nãocumpridas. Outro dia havia uma mulher chorando copiosamente e perguntando, emvoz alta, o que havia feito de errado, já que havia realizado as obrigações ecumprido o que prometera. Mesmo assim, pelo que deu a entender, sua vida tinhavoltado a desandar.          As “penas” estabelecidas para as minhaspromessas, em prol de vitórias em jogos de futebol ou de boas notas em provasescolar, por instrução da minha mãe, eram feitas de forma que eu saísse sempreno lucro: parar de fumar, não “matar” mais aulas, iniciar uma dieta, etc. Mas,de vez em quando, apostava nas duas pontas: se alcançada a graça, passaria a”azarar” a bela vizinha da casa da esquerda, porém, de acesso complicado. Casocontrário, trocaria pela da casa da direita, sem muita graça, mas, de fácilabordagem.        Contudo, o principal ou conselho da minha mãe (que não acreditavaem promessas) era a de não cair na tentação de fazer como muita gente (deve tersido o caso da chorona do oratório) que, na ânsia de ter os seus pedidosatendidos a qualquer preço, acendem uma vela para Deus e outra para o Diabo.