RONALD DE CHEVALIER X RONIQUITO

    Se a minha fada madrinha me concedesse alguns desejos, um deles seria conviver em Ipanema, nos anos 60 e 70, com Ronald Russel Wallace de Chevalier, o Roniquito. O cartunista Jaguar tentou acompanhá-lo por uma noite: foram expulsos de quatro bares.Roniquito foi o personagem mais famoso da zona sul carioca. Filho de médico ilustre possuía como amigos de copo, entre outros, Tom, Vinicius, Simonsen, Boni e Walter Clark, de quem foi assessor na Globo. Dizia-se que a sua única utilidade era beber uísque com os dois durante o expediente – em xícaras de chá para não dar na vista. Nessa época, cunhou o termo “aspone” para definir a função que exercia na emissora.    O sóbrio gentleman que beijava a mão das senhoras, ou o ébrio de temperamento bélico, era um erudito, versado em música clássica e poesia, falava inglês e francês, recitava Baudelaire e Shakespeare e demonstrava conhecer toda a literatura mundial.  Há pouco, ganhou uma biografia da irmã, Scarlet Moon, sob o título Dr. Roni e Mr. Quito, isso porque, consciente de suas metades, ele próprio anunciava ao chegar nos bares: “Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Daqui a pouco, depois de uns uísques… Roniquito”. Amicíssimo de seus amigos foi ao velório de um deles, entrou na sala errada e, diante da família compungida esbravejou: “Esse defunto é horroroso! O nosso é muito mais bonito!”. Sob o mesmo tema escapou de várias surras no circuito Ipanema-Leblon, quando ao chegar nos bares e verificar a ausência dos seus amigos dizia: “O lugar está cheio de ninguém”.  Suas histórias possuem mais cores que veracidade. Como a briga com o cartunista Otelo Caçador, quando bêbados, rolaram no chão em câmera lenta. Otelo conseguiu levantar, espremeu-lhe com o pé o pescoço e perguntou: “Chega ou quer mais?” E Roniquito: “Cansou, filho da puta?”.  Nos anos 60, foi almoçar no MAM e exagerou no uísque. Na saída, procurou seu isqueiro e não achou. Foi então que deu de cara com o presidente Costa e Silva e sua trupe de brucutus. Cigarro pendurado no canto da boca cravou o queixo nas medalhas do marechal e perguntou: “Tem fogo, aí?” Só a força do Dr. Roberto Marinho o livrou do pau-de-arara.Sua relação com os escritores foi cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino perguntou-lhe: “quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?” Sabino gaguejou: “Bem… Nelson Rodrigues é claro”. Roniquito fulminou: “E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”.  Num restaurante um dos seus desafetos surgiu com a esposa. De longe, Roniquito passou a dirigir-lhe sinais com dois dedos em forma de V. O casal andava e ele repetia o sinal. Foi então que o marido o abordou: “Tá legal! Já entendi! Você quer paz e amor!”. E o nosso personagem: “paz e amor, o cacete! Estou é oferecendo duzentinho para comer sua mulher…”.Atropelado em 1981, nunca mais foi o mesmo. Morreu aos 47 anos, em 1983, sozinho, em seu apartamento no posto 6. Para seu amigo Jaguar, muito mais que um herói-bandido, Roniquito foi um mistério: “todos nós morremos de saudade de um sujeito que vivia nos desmoralizando”.