“SAIDEIRAS”

            Sempre que fico em dúvida sobre a compra de uma lembrança típica das cidades onde, a serviço do BC, visito em companhia da parceira de trabalho, ela decreta: – “Você sabe se vai voltar aqui? Se não tiver certeza, compre. Pode ser que não surja outra oportunidade!”. “Falo” disso porque depois que dobrei a esquina dos cinqüenta anos, passei a observar que existem situações que tenho dúvidas se terei a oportunidade de experimentar mais uma vez.             Já contei que, em 2006, desfilei, na ala dos ex-alunos, na comemoração dos 120 anos do Colégio Anchieta de Friburgo. No final, abraçado à Célia, minha esposa, chorei convulsivamente. Ainda tenho dúvidas sobre os motivos: se um misto de saudade e emoção, pelo fato de representar o colégio após muitos anos junto a companheiros que não via “há séculos” – oportunidade que julgava não mais ter – ou o fato, o que é mais provável, de avaliar que essa pode ter sido a “saideira”.         Outro dia também, assustado, conclui com a minha esposa: “- Se eu posso me aposentar no ano que vem, essas podem ter sido minhas últimas férias!” E ela, rápida, rebateu: “Que nada! Na hora” agá" o governo sempre muda alguma coisa”. Garanti-lhe que não: Falta vontade política e sobram incapacidades ao novo ministro da Previdência, Carlos Lupi, presidente do PDT. Os ossos do Brizola devem estar se revirando no túmulo, por conta dessas inacreditáveis ascensões!”.        Sei que ainda estou longe dos setenta anos, média da “expectativa de vida”, mas, como sofro de uma crônica e extremosa ansiedade, passei a dotar o meu dia de 48 horas com objetivo de dar vazão aos prazeres que estão ao meu alcance.           A síndrome da “última vez” me obriga a ir sempre a Friburgo e a Copacabana, aprender a ler Guimarães Rosa, reler Josué Montello, vibrar com o Veríssimo, me esbaldar de ouvir Elis Regina, Marisa Monte e Frank Sinatra, redescobrir Bete Mendes, repassar a biografia do Guevara, admirar as pinturas do Aldemir Martins e Modigliani, não perder os jogos do Ronaldinho Gaúcho, rever os lances do Pelé, Maradona e Zidane, assistir mil vezes os filmes prediletos que começam por Cidadão Kane passam pelos antigos faroestes vão até ao “cinemão” da “Noviça Rebelde” e do “Ben Hur”, e ainda não perder nada que contenha Al Pacino e Scarlet Johansen.  Ando bebendo e comendo de tudo, e até mesmo, sob estímulos artificiais, de vez em quando, praticando sexo.         Contudo, o ápice da nova síndrome foi assistir Chico Buarque no Canecão, a preços estratosféricos, com dinheiro que não tinha, fato que resultou em estocadas orçamentárias da minha esposa. Argumentei que o compositor é um gênio que idolatro e que estando ele com mais de sessenta anos, essa minha primeira vez, poderia coincidir com a última… Ela contra-atacou com fina ironia: “Ué, mas você não é o primeiro a dizer que o Chico é imortal?”. Mas eu estava preparado:” – Foi por isso mesmo que comprei os ingressos! Ele é o imortal, mas, eu não… “”.

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