SAUDADES DO JB – II

              Da primeira vez que escrevi sobre o JB, em 2005, lembrei do tempo em que para ser aceito como freqüentador das “redes” exclusivas das praias de Ipanema era recomendável trajar sunga ou biquíni de crochê. Já o passaporte para participar de um “papo cabeça” era portar, dobrado, debaixo do braço, o Caderno B do Jornal do Brasil, de modo que a coluna do Carlinhos de Oliveira ficasse à vista.            Fui leitor diário do JB por cerca de 20 anos. Entretanto, desde 2003, seguindo o rastro deixado pela transferência dos seus melhores colunistas para O GLOBO, não resisti, e, por absoluta falta de opção e tapando o nariz, migrei para o seu antigo e principal concorrente.              Fundado em 1891, o JB circulou até 1893, quando foi fechado por um ano e quarenta e cinco dias por razões políticas. De 15 de novembro de 1894 até 31 de agosto de 2010, o jornal circulou de forma ininterrupta. Contudo, a partir da última quinta-feira, 1º de setembro, ou seja,  116 anos depois  da primeira interrupção, seus  assinantes e leitores de banca passaram a não mais encontrá-lo na versão impressa. Será editado apenas  na versão online.             De acordo com os  jornalistas Ricardo Kotscho e Fritz Utzeri que trabalharam no JB, a decisão de encerrar a versão impressa foi um “enterro tardio do diário”. Eles alegaram que o jornal morreu desde 2001 quando foi arrendado pelo empresário Nelson Tanure, um especialista em comprar empresas com dificuldades financeiras por pouco, realizar uma maquiagem externa para depois vendê-las por muito.            A empresa alegou que a mudança deveu-se a exigências da modernidade. Contudo, o JB estava falido há muito tempo. A crise começou quando o presidente do grupo, Nascimento Brito, através de um vultoso empréstimo, resolveu construir uma faraônica e desnecessária sede na Av. Brasil, no Rio, no início dos anos 70. As dívidas montam a cerca de 700 milhões.             Sob a minha ótica, na "telinha" são lidas apenas as manchetes e uma ou outra matéria.  O prazer da leitura dos jornais está no encantamento de se “tatear” a notícia, em contato com cada página, “afundado” no sofá da sala ou  acomodado num banco de uma condução ou, ainda,  com as páginas espalhadas sobre a mesa de um café. Pergunta do Ruy Castro na Folha-SP: será que alguém irá para o banheiro com uma laptop debaixo do braço?             A versão online encobre a grande diferença que havia entre o JB e o GLOBO. Exibir o Jornal do Brasil junto ao peito significava ler um jornal decente. Ser surpreendido com O GLOBO escondido debaixo do braço denunciava a leitura de um jornal indecente.

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