Se…

    Quando adolescente, assisti a um filme com um tio e, na saída, fomos abordados por um conhecido que, inconformado com o desfecho, disse: – “Filho ingrato! Se reconhecesse o esforço dos pais para educá-lo não teria se tornado um criminoso!”.  E o meu tio, na lata: – “E também esse filme não teria sido realizado…” O Veríssimo, numa crônica, colocou o seguinte: “… dizem que Adolph Hitler quase foi se tratar com Sigmund Freud. Seus pais teriam sido aconselhados a levá-lo para uma consulta com o doutor. Os Hitler não procuraram o doutor e o resultado foi o que se viu. A História teria sido diferente sem Hitler se ele tivesse se tratado com Freud  e sido um pintor de sucesso?…” Passei, então, a pensar naquela reclamação de que o país deu azar ao ser descoberto pelos patrícios e que tudo seria diferente se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses. Provavelmente estaríamos morando num país estruturado, sólido e organizado, da maneira como apregoam as promessas políticas. Viveríamos a pleno emprego. Educação, saúde e casa própria seriam direitos ao alcance de todos. E a justiça, implacável, justiçaria: os políticos respeitariam a ética, a polícia seria mais honesta, os corruptos estariam presos e os bandidos cumpririam suas penas.    Nos dois aspectos que falam diretamente à índole dos  brasileiros, o futebol e o carnaval, mesmo que não fossem alterados na sua essência pelas novas origens, os desfiles das escolas de samba teriam preços populares, não atrasariam e o regulamento não mudaria a cada ano. Ganharia quem empolgasse mais na avenida. Já o futebol teria torcedores comportados, sentados em seus lugares pré-determinados, comemorando gols com palmas, os ingressos poderiam ser comprados antecipadamente em diversos locais, sem necessidade de cambistas, e o regulamento teria tanta clareza e objetividade que dispensaria tribunais. Nua conversa com o meu misto de “secretário e faz tudo”, realizei alguns relatos de como é organizada a vida, nos países nórdicos, Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Islândia, onde tudo funciona e praticamente não existem imprevistos.Depois, entusiasmado, passei a enumerar as vantagens que teríamos se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses. Ele me olhou fixamente durante algum tempo e “sapecou” a sua sabedoria popular: “brasileiro não nasceu para viver certinho, não. Nosso país só funciona avacalhado. É de nascença."E depois, arrematou de forma inapelável: "Se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandesesz, ou se tudo funcionasse como naqueles países dos louroscomo você diz, não ia ter graça nenhuma. A vida aqui ia ser chata pra cacete!"