SUPERSTIÇÃO

             É claro que, como bom brasileiro, eu sabia que este ano é pródigo em feriados, contudo, não havia me ligado que entre essas folgas acontecerão três sextas-feiras treze. Contrariando meus hábitos, não me preocupei em pesquisar sobre a origem da maldição da sexta-feira treze, do gato preto, do sapato virado e tantas outras, porque – aposto – nenhum registro sobre a origem das crendices populares dará o devido crédito ao ex-presidente do Botafogo, Carlito Rocha, como o de principal divulgador e avalista das superstições no país. Reza a lenda que, concomitante a um jogo do Botafogo contra o Madureira na zona norte, haveria um baile de debutantes no clube na zonal sul. Como estava calor e a partida era considerada fácil, Carlito abriu uma raríssima exceção à ordem da permanência das janelas hermeticamente fechadas durante os jogos do Botafogo e permitiu a abertura das vidraças. Não havia passado nem 20 minutos do primeiro tempo e o Botafogo já perdia de 2 x 0. Atarantado, Carlito convocou o seu “staf”, composto por um pai de santo, um macumbeiro, um católico, um espírita e um evangélico e cobrou: – “O Biriba (cachorro mascote) urinou nos pés dos jogadores? – “Sim Senhor!””. O coro de vozes respondeu. – “Foram acesas velas para a padroeira?” – “Sim, senhor?”. Mais uma resposta em comum. – “O técnico está usando a mesma cueca dos últimos jogos?” – Sim, senhor! A resposta veio em uníssono.  – “Então, como é que eles fizeram dois gols, se foram tomadas todas as providências e eu fiquei de costas para o campo quando eles atacaram?”.  Perguntou Carlito para si mesmo. De repente, deu um tapa na própria testa, pegou um táxi e rumou para a sede da zona sul. Em seguida, invadiu o baile e foi fechando as janelas, alertando que só poderiam ser abertas novamente quando o jogo acabasse.De volta ao campo do Madureira, o Botafogo já havia virado a partida para 3 x 2 …   Agora uma experiência pessoal: junto a dois amigos, observava um dono de bar, trepado numa uma escada de abrir, pintar a marquise do seu comércio. Enquanto trabalhava, o cidadão desdenhava das superstições, chegando a afirmar que se deparasse com “despacho” numa encruzilhada, destruiria “debaixo de pontapés”.   Num momento em que ele necessitou descer à calçada, o desafiamos a passar debaixo da escada. Ele estufou o peito e aceitou a provocação. Quando ia saindo vitorioso do outro lado, um dos sapatos ficou preso no pé escada. Quando conseguiu se desvencilhar o calçado saiu do pé e ficou virado com a sola para cima. Nesse momento, surgiu na calçada outro tradicional prenúncio de azar que será revelado no final.É claro que não deu outra: a tentativa de desprender o pé do calçado balançou a escada e o galão de tinta preso lá no alto entornou todo o conteúdo em cima do sujeito. Qual foi o outro prenúncio de azar? Foi um gato preto que, naquele exato momento, surgiu desfilando preguiçosamente em frente à cena, com o rabo empinado. Se “passar embaixo de escada”, “sapato virado para cima” e “gato preto” já formam uma combinação explosiva e poderosa a favor do azar, imagine o acréscimo de mais um detalhezinho final: era uma sexta-feira treze.