UM RARO PRAZER

           Li que quase todos os 27 países da União Européia declararam uma guerra sem tréguas e sem fronteiras ao fumo em locais públicos fechados. Na França, cujo objetivo é atingir a marca de um milhão de ex-fumantes por ano, vigora um decreto que multa em R$190 o uso do cigarro em locais públicos. As empresas que deixarem seus funcionários fumar no trabalho vão pagar R$372. Em 2008, o cigarro será banido em restaurantes, tabacarias, cassinos e boates. A segregação é digna de Hitler contra os judeus. Qualquer hora vão começar a identificar os fumantes com a marca da caveira do Fantasma, como adorariam os “ecos-chatos”.Na minha infância em Friburgo, inspirava por entre os dedos em “v” colados aos lábios a neblina das noites geladas de inverno e depois, a expirava lentamente, imitando os gestos do meu pai, um fumante inveterado de quase três maços por dia, que morreu de um problema cardíaco.Depois, migrei para os cigarros de chocolate que podiam ser comprados em maços como se fossem de verdade. Antes de serem comidos eram “fumados” como faziam os adultos. A gente soltava até uma fumaça imaginária. Além do sabor inigualável, não deixavam cheiro, não sujavam o chão e matavam a fome.Sob o olhar complacente da minha mãe e como era hábito entre os garotos da rua, passei a “fumar” os meus primeiros cigarros de talos secos retirados das parreiras de chuchu que havia no quintal da minha casa, que acesos, transformavam a brasa em cinza e emitiam uma “fumacinha” fininha, quase imperceptível. A partir da adolescência, o cigarro com seu jeito calmo e calado, alcançou o “status” de amigo inseparável, preventivamente presente nas ocasiões em que não sabia onde enfiar as mãos, como na espera do encontro com a primeira namorada, na esperança dos resultados das provas de colégio e de emprego, no misto de satisfação e alívio da primeira experiência sexual e na expectativa da maternidade das filhas. Conheci inúmeros cigarros que solidariamente teimaram a ficar acordados ao meu lado nas noites de insônia. Muitos dos meus segredos foram divididos com outros, mais íntimos. Gostaria de poder um dia retribuir àqueles que serviram de capa nos dias de chuva, de agasalho nos dias de frio e àqueles que saciaram muitas das minhas fomes.Por problemas físicos, sem causas no cigarro, não fumo há treze anos. Durante o tempo que durou o nosso “caso”, mantivemos uma relação de amizade, confiança, solidariedade e, principalmente de raro prazer. De vez em quando alguém pede licença para acender um exemplar perto de mim. Imponho apenas uma condição: que a fumaça seja expelida em minha direção, porque essa história de fumante passivo é infantil! De longe, arrisco dizer que as lideranças desse novo apartheid são falsos ex-fumantes “esquecidos” dos inúmeros momentos de prazer desfrutados em conjunto. Falsos porque, como a maioria dos ex-fumantes que conheço, que posam como inimigos radicais do cigarro, aposto como fumam escondidos.