VEM DANÇAR COMIGO!

        Incrível! Nem a vibração de um deslocado público futebolista extasiado diante dos “saltos mortais” exibidos à vontade na etapa nacional da Copa do Mundo de Ginástica; tampouco a execução do Hino Nacional consagrando as medalhas de ouro do Brasil e nem a agitação de bandeiras brasileiras pela equipe de ginastas comemorando com a platéia os brilhantes resultados obtidos no domingo, dia 04, conseguiram me arrepiar de cima em baixo como no sábado antecedente, quando parei para dar uma olhada nas manchetes dos jornais pendurados nas bancas. Simplesmente, TODOS os periódicos haviam direcionado sua manchete principal para Daiane dos Santos. Até O GLOBO, jornal de repercussão internacional e habitualmente cético – sob o título de “Brasileirinha”, dedicou-lhe foto colorida de quase ¼ de primeira página. Homenagem digna de presidente da república em dia de posse.E foi aquele tipo de emoção traiçoeira que vem tomando conta da gente bem devagar: começa provocando um frio no estômago; sobe até o peito e o aperta; alcança a garganta e dá um nó que sempre culmina em lágrimas que teimam em escorrer pelos cantos dos olhos. Daquelas que para serem enxugadas disfarçadamente, a gente finge esfregar a vista espantando o sono.Mas, já entendi. Daiane traduz com perfeição um dos tipos mais representativos de mulher brasileira: negra; baixinha (1,45 cm); perna grossa, curvilínea, seios volumosos. Simpática a ponto de transformar feiúra em beleza. Até seu nome, de origem estrangeira, segue o padrão nacional. E é, principalmente, o resultado de mais um milagre brasileiro: de origem humilde, iniciou-se na modalidade aos 12 anos, idade em a maioria das ginastas já disputa competições. Muitos técnicos, também por preconceito, duvidaram da possibilidade de aquela menina negra triunfar em um esporte dominado pelas louras potências olímpicas. Sugeriam que largasse tudo e tentasse o atletismo que junto ao basquete, são os esportes que melhor “comportam” negros.  Daiane é tão especial que quando começou a treinar aos doze anos já menstruava. Fato normal para meninas não atletas. Com ginastas a média sobe para 17 em razão do nível de gordura situar-se em 4%. Daiane possui 9%. Ainda por cima, estima-se que suporte o equivalente a um peso de 600 quilos cada vez que aterrissa de seu vôo. Para uma ginasta não seria tão sacrificante, caso ela não tivesse os dois joelhos “estourados” como se diz no jargão futebolístico.Mentiria, se neste fechamento não confessasse que, ultimamente, por ter recebido uma overdose de notícias sobre a gaúcha acabei por sonhar que durante uma apresentação solo, ao som de “Brasileirinho”, Daiane foi até a platéia e me tirou para dançar. Rodopiei abraçado com ela até “morrer” de emoção. Mais feliz que “pinto no lixo”.

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