A propina para o presidente da Câmara

    Delator detalha o repasse de US$ 5 milhões a Eduardo Cunha referentes a dois contratos de navios-sondas com a Petrobras. Deputado rebate a denúncia e afirma que só pode ser investigado pelo Supremo

    O executivo da empresa Toyo Setal Júlio Camargo, que firmou acordo de delação premiada, informou, na tarde de ontem, em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, que pagou propina de US$ 5 milhões, em 2011, ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. O delator ressaltou que o suborno, referentes a dois contratos de navios-sondas da Petrobras que somavam R$ 1,2 bilhão, assinados entre 2006 e 2007, foi pago por intermédio de Fernando Baiano e que o doleiro Alberto Youssef participou da transação. O valor total devido em propina pelo executivo era 10 milhões de dólares. Uma parte para Baiano e a outra para Cunha. Camargo apresentou planilhas para provar os repasses feitos em contas do exterior e também pagos diretamente às empresas de Baiano, apontado como o operador do PMDB no esquema de corrupção. 

    No depoimento, Camargo ofereceu muitos detalhes das conversas. Disse que se reuniu pessoalmente com Cunha num domingo à tarde, num edifício comercial no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. O presidente da Câmara, de acordo com o delator, afirmou que o pagamento estava atrasado e que ele tinha compromissos. “Tivemos um encontro, o deputado Eduardo Cunha, Fernando Soares e eu. Eu fui bastante apreensivo. O deputado Eduardo Cunha é conhecido como uma pessoa agressiva, mas confesso que comigo foi extremamente amistoso dizendo que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu com o Fernando Baiano do qual ele era merecedor de US$ 5 milhões.” 

    Camargo conta que Cunha afirmou que precisava do recurso porque estava na véspera das eleições. “Estava atrapalhando porque estava em véspera de campanha, se eu não me engano, era uma campanha municipal, que ele tinha uma série de compromissos, que eu vinha alongando esse pagamento há bastante tempo e que ele não tinha mais condições de aguardar”, afirmou.

     

    Detalhamento

    O executivo afirmou que o deputado alegou que não bastava pagar apenas a parte dele. Pressionou para que todo o suborno que havia sido acertado fosse pago. Para isso, Julio recorreu ao doleiro Alberto Youssef, que organizou o recebimento dos recursos no exterior. Em delação, Youssef já havia citado Cunha como beneficiário do esquema de corrupção na petroleira justamente nesse contrato de navios-sonda. “Eu me organizei porque o Eduardo Cunha não aceitou que eu pagasse somente a parte dele. “Pode até pagar o Fernando com um prazo mais dilatado, mas o meu preciso rapidamente. Mas faço questão de você incluir no acordo ainda aquilo que você falta pagar ao Fernando””, teria dito Cunha, segundo Camargo. 

    O executivo detalhou ao juiz Sérgio Moro como fez o pagamento. Com uma planilha nas mãos, ele explicou um por um. “Eu paguei através de depósitos ao Alberto no exterior, paguei através de operações com a GFD. Parte daqueles recursos foram utilizados para dar liquidez em reais a serem feitos esses pagamentos. Fiz pagamentos diretos a empresas de seu Fernando Baiano”, assegurou. 

    O delator conta que inicialmente foi procurado por Fernando Baiano, que relatou a pressão do deputado pelos recursos. De acordo com Camargo, Baiano teria dito que o peemedebista apresentaria um requerimento na Câmara para que os contratos em que Camargo e a empresa Mtisui estivessem à frente fossem investigados pelo TCU. O delator relata que, alguns dias depois, um representante da Mtisui no Rio de Janeiro o chamou para uma reunião e mostrou o requerimento que havia chegado ao gabinete do então ministro de Minas e Energia, Edson Lobão. 

    Camargo declara que, por intermédio do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, conseguiu encontrar com Lobão na base área do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ao mostrar o requerimento, assinado pela deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), o ministro teria dito de imediato: “Isso é coisa do Cunha”. Camargo relata que Lobão ligou para o deputado na sua frente e disse que queria marcar uma reunião com ele. “Eduardo, estou aqui com o Júlio Camargo, você está louco?” Não sei o que o deputado respondeu, mas disse “você me procure amanhã cedo no meu gabinete em Brasília que eu quero conversar com você”, atestou o delator.

     

    Outro lado

    O presidente da Câmara reafirmou que já se encontrou duas vezes com o lobista Fernando Baiano, mas para discutir a medida provisória dos Portos. Cunha chamou Camargo de mentiroso. “Quem não deve não teme. Ele está mentindo”, refutou. “Desminto com veemência as mentiras do delator e o desafio a prová-las”, afirmou o parlamentar, em nota distribuída minutos antes. Ele ainda disse que as afirmações do consultor são inválidas porque foram feitas perante um juiz de primeira instância sobre um deputado federal, que só pode ser investigado no Supremo Tribunal Federal. “No meu caso é mais grave. Eu tenho foro privilegiado. A delação dele não foi homologada pelo STF.” Cunha ainda lembra que o delator nunca havia mencionado seu nome. “É muito estranho, às vésperas da eleição do procurador-geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo procurador (Rodrigo Janot), ou seja, obrigar o delator a mentir”, disse o deputado na nota.

     

    »  As acusações

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    » O delator Julio Camargo afirmou que foi pressionado pelo presidente da Câmara a pagar US$ 10 milhões em suborno referentes a um contrato de navios-sonda na Petrobras que teria sido intermediado pelo lobista Fernando Baiano.

     

    » Do valor total relatado pelo Executivo da Toyo Setal, Cunha teria pedido diretamente US$ 5 milhões. Disse que a parte de Fernando Baiano também deveria ser paga. O delator apresentou uma planilha informando os pagamentos feitos no exterior por intermédio do doleiro Alberto Youssef.

     

    » Em depoimento de delação premiada, Alberto Youssef também relatou que Cunha era um dos beneficiários do esquema de corrupção na Petrobras. Ele citou justamente o contrato para

    contratação de navios-sonda das empresas Samsung e Mtsui.

     

    » Os delatores afirmam que Cunha ameaçou Camargo, por meio de Fernando Baiano. O deputado havia dito que iria propor um requerimento para investigar no TCU as obras em que Camargo estaria à frente. O requerimento, de fato, foi apresentado pela deputada Solange Almeida (PMDB-RJ)

     

    » Cunha também é acusado de ter recebido dinheiro sujo do esquema de corrupção na Petrobras por meio do policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca. O policial atuava como funcionário do doleiro Alberto Youssef. Fazia a entrega da propina.

     

    Intimidação de “pau mandado”

    O doleiro Alberto Youssef afirmou ontem, em depoimento à Justiça Federal no Paraná, que está sendo vítima de intimidação por um deputado que integra a CPI da Câmara. Segundo informou o portal G1, Youssef não identificou o parlamentar, mas disse que é um “pau mandado” de Eduardo Cunha. “Sim, eu venho sofrendo intimidação perante as minhas filhas, perante a minha ex-esposa, por uma CPI coordenada por alguns políticos e que inclusive o nome de um deles foi mencionado aqui por mim”, respondeu Youssef. “Como réu colaborador quero deixar claro que eu estou sendo intimidado pela CPI da Petrobras por um deputado, pau mandado do senhor Eduardo Cunha”, disse. O presidente da Câmara não se manifestou sobre o assunto até o fechamento desta edição.

     

    Fonte: Correio Braziliense

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