BC: recessão contra carestia

    Ata do Copom mostra que autoridade monetária acredita que crescimento baixo levará inflação para a meta em 2016

    O ano de 2014 tem sido de ironias para a economia. A mais recente delas é que o frágil crescimento econômico, apesar de ruim para o país, é a mais nova aposta do presidente do Banco CENTRAL (BC), ALEXANDRE TOMBINI, para conter a escalada dos preços. Sob risco de descumprir a meta de inflação, de 4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos para cima ou para baixo, ele aposta todas as fichas em que a recessão ajudará no controle do custo de vida. O raciocínio de TOMBINI e de sua equipe de diretores que integram o Comitê de política monetária (Copom) ampara-se na ideia de que, com a indústria em recessão e as vendas do varejo encolhendo mês a mês, os consumidores, já atolados em financiamentos, ficarão ainda mais receosos em contrair novas dívidas. Ao reduzirem as compras, reitera o órgão, eles jogarão uma pá de cal sobre a intenção dos empresários de reajustar preços.

    A esse processo o BC deu o pomposo nome de “realinhamento das taxas de crescimento da absorção interna”, o que, na verdade, quer dizer que projeta um equilíbrio maior entre o consumo mais fraco das famílias e a oferta ainda limitada de produtos e serviços pelas empresas. “Nesse contexto”, observou a ata da última reunião do Copom, divulgada ontem, “é plausível afirmar” que, mantidas as condições atuais (da economia), a inflação tende a entrar em “trajetória de convergência” para o centro da meta, a partir do segundo trimestre de 2016.

    Não quer dizer que tudo esteja sob controle. Ainda estão no documento expressões como “certa persistência da inflação”, ou outras mais diretas, que apontam que a carestia ainda se encontra “elevada”. Entretanto, conforme lembrou o economista Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, o Copom retirou do documento o termo “resistência” para indicar o comportamento da inflação. Um detalhe: a expressão constava em atas desde janeiro de 2013. “Ao nosso ver”, escreveu Barros, em análise a clientes, “a despeito do nível ainda elevado da inflação, já se observa alguma moderação nos indicadores (de custo de vida)”, disse.

    Na mesma

    É por mostrar preocupação com os preços elevados que o BC indicou, pela segunda vez, que seus cenários não contemplam a “redução no instrumento de política monetária“. Traduzindo: a taxa Selic, atualmente em 11% ao ano, deverá ficar onde está. Porém, como de costume, a autoridade monetária não indicou por quanto tempo durará essa trégua nos juros, o que levou a uma divisão no mercado.

    Uma ala mais radical aposta que já partir de janeiro de 2015 o BC poderá lançar mão de uma queda nos juros, se os resultados da economia ainda continuarem decepcionantes, como os atuais. O que poderá pesar para essa queda da Selic, reforçam esses economistas, será uma desaceleração ainda mais forte do consumo das famílias e “outros limitadores do crescimento”, como a renda das famílias e a expansão moderada do crédito, conforme apontou o próprio BC, na ata.

    O economista-chefe para a América Latina do Banco americano Goldman Sachs, Alberto Ramos, discorda dessa avaliação. “Acreditamos que a melhor contribuição que o Banco CENTRAL possa dar para o crescimento elevado, equilibrado, sustentável e de alta qualidade da economia não é cortar as taxas de juros de forma prematura, como, aliás, já foi feito antes”, assinalou. Para ele, é mais importante que o BC foque em sua principal missão, “que é entregar uma inflação baixa e estável”, emendou.

    É por entender que a inflação ainda está pressionada que boa parte dos economistas aposta na manutenção dos juros em 11% ao ano até o fim de 2015. Estão nesse barco os departamentos econômicos de instituições como Itaú e Bradesco. Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostago, é hora de cautela. “Com inflação não se brinca”.

     

    » Conta de luz mais cara

    O consumidor deverá ver a conta de luz ficar ainda mais salgada em 2014. Em meio à escalada nos reajustes das distribuidoras, que, em alguns casos, chegam a superar os 30%, o Banco CENTRAL não viu outra saída a não ser revisar para cima suas projeções para as tarifas. Até julho, o Comitê de política monetária (Copom) previa reajuste médio de 14% na conta de luz. Agora, essa previsão saltou para 16,8% nos preços da energia elétrica.

     

    Fonte: Correio Braziliense

    Matéria anteriorPrognóstico do Diap para a Câmara dos Deputados na eleição de 2014
    Matéria seguinteJuízes ameaçam greve