Brasil paga o preço de pecados originais

    Três dos principais economistas do mercado alertam que o baixo crescimento do país decorre de erros recorrentes, como falta de reformas, intervenção no BC, elevada meta de inflação, flerte com o populismo, truques fiscais e congelamento de preços

    SIMONE KAFRUNI
    VICTOR MARTINS

    Tudo conspira para minar a confiança no Brasil. O país abandonou as reformas necessárias, mantém uma meta de inflação elevada e flexibilizou objetivos na política fiscal. Além disso, jamais buscou a independência do Banco Central e abusou da contabilidade criativa nas contas públicas. Esse quadro, segundo economistas ouvidos por parlamentares, responde por pelo menos 30% da crise pela qual passa a economia brasileira. O histórico do país, de calote, também é um agravante. “O Brasil tem um pecado original”, sentenciou Octavio de Barros, diretor de Pesquisa e Estudos Macroeconômicos do Bradesco. “A percepção internacional é de que há avanços, mas falta apetite para as reformas”, disse.

    Barros se reuniu ontem com Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, e Nilson Teixeira, economista-chefe do Crédit Suisse. O trio apresentou a senadores, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), um panorama da economia brasileira e sugestões para minimizar os efeitos da desaceleração global sobre o Brasil. “Confiança é o nome do jogo”, disse Barros. “O Brasil tem um problema recorrente de crise de confiança, independentemente do governo do momento”, argumentou.

    Na Comissão, foi consenso a avaliação de que melhorar a credibilidade reforçará o fluxo de capitais para o Brasil, atenuará a desvalorização do real e favorecerá o crescimento econômico e o combate à inflação. Nos cálculos de Nilson Teixeira, o Brasil avançará 2,4% em 2013 e 3% no próximo ano, índice possível desde que o país melhore o desempenho nos próximos trimestres. Do contrário, a estimativa será revisada para baixo. Em 2012, Teixeira previu expansão de 1,5% para o Brasil e foi duramente criticado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que considerou o número uma piada. Ao fim do ano, porém, o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) foi pior, de apenas 0,9%.

    Para os economistas, depois da euforia com o segundo trimestre, quando o PIB saltou 1,5%, será preciso muita calma para enfrentar o resultado acumulado entre julho e setembro. Tudo aponta para uma estagnação ou mesmo queda de até 0,5%. Dados de vendas de papelão ondulado, divulgados ontem pela associação que representa o setor, confirmam a tese dos especialistas — houve queda de 3,04% na comparação entre agosto e igual mês de 2012. O número, assim como o fluxo total de veículos pelas estradas pedagiadas, que cresceu 0,7% na mesma comparação, segundo a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), é importante porque dá pistas do desempenho do setor produtivo. É o que se chama de indicador antecedente.

    Fim de estímulos
    A situação brasileira pode se agravar mais a partir da próxima semana, quando se reúne a cúpula do Federal Reserve (Fed, o BC dos Estados Unidos). Os analistas ainda estão divididos quanto ao início da retirada de estímulos dados pela instituição à maior economia do planeta, da ordem de US$ 85 bilhões mensais. Caso o desmonte comece rapidamente, a tendência é de nova disparada do dólar no Brasil e de aumento da desconfiança. “Não adianta esperar o súbito surgimento de uma boia de salvamento, como uma improvável mudança de atitude do Fed ou um repasse menor do câmbio para a inflação”, alertou Barros. “Realismo é fundamental. É melhor nadar e não esperar pela boia”, disse.

    Os economistas ainda criticaram o baixo nível de investimento no Brasil. “O setor privado está salivando diante das possibilidades de investimento em infraestrutura, mas falta confiança para se tornar protagonista”, analisou Barros. “O Brasil deveria tratar produtividade como obsessão. Há uma demanda da sociedade por isso. O país precisa de bem mais que um BC sério para controlar a inflação, precisa de um esforço concentrado”, observou. Para os três economistas, a carestia no Brasil segue em patamar elevado. A meta, que tem como teto 6,5%, é elevada demais; o que gera um impulso quase que natural sempre para cima nos preços.

    Para colocar o Brasil na trajetória de um custo de vida menor, os economistas defenderam o projeto de independência do BC, em tramitação no Senado. “A autonomia do BC seria muito importante para a redução da inflação”, salientou Teixeira. “O país está tremendamente maduro para aprovar a independência do BC. Isso teria o impacto institucional de um Plano Real”, disse Barros.

     

    Fonte: Correio Braziliense

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