Com ameaça de crise, mercado cogita Lula

    Onda de pessimismo e distanciamento dos investidores alimentam a possibilidade de que Dilma seja substituída na corrida presidencial

    PAULO SILVA PINTO
    VICENTE NUNES
    LUIZ CARLOS AZEDO

    Apesar de toda a desenvoltura que tem procurado mostrar como candidata à reeleição, a presidente Dilma Rousseff voltou a conviver com um fantasma: a possibilidade de seu criador, o ex-presidente Lula, retirá-la de campo e assumir a disputa pelo Palácio do Planalto neste ano. Diante da onda de pessimismo que se espalha pelo país e do distanciamento cada vez maior entre o governo e empresários e investidores, dentro do PT, no mercado financeiro e no entorno da própria Dilma voltou-se a cogitar a hipótese de ela não concorrer a mais quatro anos de mandato, para não pôr em risco o projeto de poder dos petistas.

    Lula, no entanto, resiste. Em viagem nesta semana a Nova York, ele foi instado a assumir a candidatura do PT por grandes investidores, que andam receosos com os rumos da economia brasileira. Para eles, desde que Dilma tomou posse, houve uma decepção generalizada com o governo, sobretudo depois de o Planalto endossar o projeto da “nova matriz econômica” criado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

    Em vez de a nova matriz incrementar a expansão do Produto Interno Bruto (PIB), o crescimento encolheu e está na menor média em 20 anos — apenas 1,8% anual. A inflação se mantém próxima do teto da meta, de 6,5%, e o rombo das contas externas é o maior da história.

    Empresários e banqueiros que tentam seduzir Lula a voltar ao poder reconhecem que Dilma herdou muita coisa ruim do antecessor, principalmente no que se refere às contas públicas. Para reduzir os impactos da crise de 2008, o então presidente abriu os cofres para reanimar a economia.

    Diálogo
    Empresários e banqueiros que têm liderado o movimento “volta Lula”, no qual se inclui o presidente da Cosan, Rubens Ometto, estão cientes de que não haveria uma mudança radical na política econômica num eventual governo lulista. Mas acham que teriam novamente um bem precioso: o diálogo com o Planalto.

    Apesar de Dilma assegurar que as portas de seu gabinete estão abertas ao capital, os contatos com o empresariado têm sido escassos, o que vem aproximando o mercado dos dois principais candidatos presidenciais de oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

    Lula acredita que ainda há tempo para restabelecer a ponte entre Dilma e empresários e investidores. Primeiro, porque ninguém no governo espera a explosão de uma crise a curto prazo, que possa abalar as chances de reeleição da presidente, conforme mostram as pesquisas de intenção de voto e indicam os palanques montados pelo PT nos estados. O discurso de Lula não impede, porém, que ele ouça de um empresário próximo o risco de insistir no atual projeto de governo. Em meio a um restrito grupo, esse industrial disparou para o ex-presidente: “Seu maior erro até hoje foi eleger Dilma. Mas será um erro ainda maior reelegê-la”.

    Além das conversas entre os empresários, o assunto é tratado com discrição, mas com determinação, dentro do próprio PT. Políticos da cúpula do partido atestam que o agente da articulação é Antonio Palocci, ministro da Fazenda de Lula e chefe da Casa Civil no início do governo Dilma.

    Procurado pelo Correio, Palocci disse por meio da assessoria que está “completamente dedicado” às atividades de sua consultoria empresarial, a Projeto. Acrescentou que “desconhece qualquer iniciativa para que Lula seja candidato à Presidência em 2014”.

    Que Dilma enfrenta resistências dentro de seu partido é, porém, inegável. Em primeiro lugar, por não ser uma petista histórica. Ela tem recuado alguns passos. A saída da ministra-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Helena Chagas, foi o capítulo mais recente. A área afinou-se com a estrutura partidária,já envolvida na campanha. Se dependesse de Dilma, essa mudança ocorreria mais tarde.

    » Meta do superavit de 1,8%

    O Palácio do Planalto e a Junta Orçamentária ainda não chegaram a um acordo sobre qual será o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) perseguido como meta de superavit primário. O Ministério da Fazenda defende 2%, mas a Casa Civil e a presidente Dilma Rousseff veem dificuldades para cortar gastos. Técnicos avaliam que o governo fará um esforço fiscal de 1,3% do PIB, e os estados e os municípios, de 0,5%. Com isso o primário será de 1,8%. 

     

    Fonte: Correio Braziliense

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