Disputa presidencial não via tanta incerteza desde 1989

    Por Fernando Limongi

    Esta é uma eleição surpreendente. Quando tudo já parecia encaminhado, as pesquisas trouxeram novas surpresas. Marina perdeu forças e Aécio, dado como descartado, ganhou esperanças. Já não sabemos qual dos dois acompanhará Dilma no segundo turno. A candidatura oficial se revigorou e saltou à frente, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Neste cenário, com tanta flutuação, não é recomendável fazer prognósticos. Pesquisas estão sendo aguardadas com ansiedade, por candidatos e eleitores, sobretudo pelos que querem derrotar o PT. 

    No início da campanha, antes da morte de Eduardo Campos, as indicações eram de que a polarização PT-PSDB, que marca as eleições presidenciais desde 1994, ditaria os rumos da campanha. Campos precisava provar que era uma alternativa efetiva a ambos. Quando faleceu ainda não tinha afinado seu discurso e encontrado espaço para viabilizar sua candidatura. Talvez tenha lhe faltado tempo para provar que era uma alternativa superior aos seus adversários.

    Não que Dilma ou Aécio entusiasmassem. Longe disto. As opções por estas candidaturas pareciam ser fruto da resignação diante da falta de opções. Só se pode votar nos candidatos disponíveis. Assim, o enorme desejo por mudanças, a insatisfação profunda que as manifestações de Junho de 2013 teriam revelado, não encontravam expressão política.

    A morte de Campos e sua substituição por Marina sacudiu o ambiente. Em poucos dias, a ex-senadora passou a favorita. Empolgou. Não precisou construir uma candidatura, ganhou superexposição como consequência do desastre. As assinaturas que escaparam da Rede foram obtidas por meios transversos. A intervenção superior não deixou de ser lembrada. Uma candidatura a um só tempo acidental e predestinada.

    Marina não precisou definir seu espaço ou acertar discurso. Entrou por cima e com tudo. No primeiro debate na TV foi direto ao ponto, afirmou que governaria com os melhores, tanto do PT quanto do PSDB. No seu governo, afirmou ainda, Suplicy e Serra teriam lugar, a despeito da disputa travada entre ambos por uma cadeira no Senado. Em lugar dos partidos e da partilha de cargos, prevaleceria o compromisso ético. Anunciava-se o alvorecer da nova política.

    O novo plano em que o debate passou a ser travado não era o mais apropriado para Dilma, enredado, em função da sua estratégia eleitoral na “velha política”. Ao longo de todo o mandato de Dilma, o PT investiu obsessivamente na assimilação do maior número possível de forças políticas à base de apoio ao governo. O tratamento dispensando ao PSD foi emblemático. O partido foi cortejado não porque tivesse os votos que o governo precisasse para aprovar matérias. A lógica era outra, eleitoral e não parlamentar. O objetivo era reproduzir 2010, impedir que a oposição ganhasse corpo, fragilizá-la.

    O desgaste da imagem do partido foi acentuado pelas dificuldades de manter a coalizão unida em diversos estados. A outra perna da estratégia de 2010 falhou. Não foi possível coordenar todos os interesses envolvidos, barganhando o lançamento e a retirada de candidaturas Brasil afora. O tamanho excessivo da base do governo fez com que fosse impossível montar o quebra-cabeça usando todas as peças.

    O fato do PMDB ter a vice-presidência tornou esta tarefa ainda mais difícil. Em todos os governos anteriores, o PMDB sempre esteve cindido em duas facções, uma governista e outra oposicionista, de acordo com as conveniências locais de suas lideranças. O PMDB não se acomodou bem ao novo papel de principal coadjuvante, nem o PT e outros parceiros aceitaram tão facilmente a convivência a que foram forçados. O Rio de Janeiro talvez seja o caso paradigmático de todo este imbróglio. Após uma longa guerra de atritos, o governo acabou apoiando quatro candidaturas ao governo estadual sem que PSDB ou PSB tenham candidaturas fortes no Estado. Em vários outros estados, como Ceará e Maranhão, problemas similares emergiram, desgastando o governo.

    Antes mesmo da entrada triunfal de Marina na campanha, firmas de consultoria anunciavam que as chances de Dilma se reeleger eram baixas. Em alguns modelos estatísticos, suas chances de se reeleger foram sendo rebaixadas dia a dia. Chegou a ficar abaixo de 50%. Contudo, nestes modelos, faltava prever quem ocuparia a Presidência em seu lugar. Previa-se um absurdo: uma eleição sem vencedor.

    A assunção de Marina a cabeça da chapa do PSB resolveu o problema lógico. A lacuna foi preenchida. Na realidade, ninguém ansiava mais pela chegada de Marina do que o “mercado”, onde a animosidade a Dilma superara a revelada por Willian Bonner. A ingerência da presidente na gestão da política macroeconômica e, em especial no Banco CENTRAL, estaria levando o país ao precipício.

    Até o início da semana, o cenário era favorável a Marina, à frente em todas as pesquisas no segundo turno. O PT e a candidatura Dilma estavam em baixa. Seus pontos fracos e vulnerabilidade eram realçados e apresentados como explicações para uma derrota que parecia cada vez mais provável. A personalidade e estilo da presidente vieram para o primeiro plano. Sua incapacidade para negociar e ouvir, sua teimosia e ideias próprias sobre tudo, incluindo a taxa de juros e a inflação, tudo isto e mais um pouco explicariam a derrota, algo que era impensável ano e meio atrás. As coisas poderiam ser diferentes se a presidente tivesse jogo de cintura, se fosse efetivamente do ramo.

    Tudo indicava e dava como certo um segundo turno entre Marina e Dilma, nesta ordem. Aécio relegado ao esquecimento. E não é que tudo mudou em pouco menos de uma semana? O PT recobrou suas forças, o balão de Marina revelou furos e Aécio pode sonhar com alcançar o segundo turno. Conhecidos os números das pesquisas desta semana, não há maiores dificuldades para interpretar o que está se passando. O PT se segura com o apoio de seu eleitorado fiel, aquele cuja vida melhorou nos últimos anos e que prefere o certo ao incerto. Um eleitorado, digamos assim, que está votando olhando mais para o passado do que para o futuro. Um novo governo do PT não entusiasma, mas é mais seguro que as alternativas postas. Marina foi rápida e ágil para aceitar que todas as expectativas de mudança e melhoria convergissem para si. As inúmeras restrições que fazia enquanto era vice foram relegadas ao esquecimento em minutos. Alckmin e seu vice do PSB deixaram de ser um bicho-papão e Márcio França passou a cuidar das finanças da sua candidatura. A “sonhática” cedeu lugar a pragmática. Parece que exagerou. Perdeu a mão. Querendo agradar a todos, perdeu sua identidade.

    Se o balão do PSB murchar de vez, Aécio está pronto para entrar em campo e lutar no segundo turno. Contudo, não há como deixar de notar que mesmo que sua candidatura venha renascer das cinzas, o PSDB sai enfraquecido desta eleição. A perda do governo de Minas, que pelas pesquisas mais recentes parece definitiva, retira um dos pilares sobre o qual o partido se apoiou para sobreviver na oposição.

    Em meio a todas estas voltas e reviravoltas, diante de todas as expectativas e previsões de que o desastre espreitava da esquina, o PT resistiu. As intenções de voto no PT sobreviveram às manifestações de Junho de 2013, ao julgamento do mensalão, a perda de dinamismo da economia e os insistentes avisos dos analistas que estamos vendo apenas a ponta de um iceberg. Resistiu à ascensão meteórica de Marina.

    Dilma com certeza estará no segundo turno, mas ninguém sabe ao certo se na companhia de Marina ou de Aécio. Acidentes e as reviravoltas das últimas pesquisas recomendam cautela. Segundo turno para valer, com incerteza, só em 1989. De lá para cá, ou sequer tivemos segundo turnos (1994 e 1998), ou o segundo turno foi só para cumprir tabela. No máximo, esperava-se com alguma expectativa a primeira pesquisa para confirmar o que era previsível. Lula (2002 e 2006) e Dilma (2010) não foram seriamente ameaçados por seus rivais. Desta vez, tudo pode ser diferente. Cada um que faça a sua aposta.

    Fernando Limongi é professor de Ciências Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Cebrap

     

    Fonte: Valor Econômico

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