Servidores do IBGE criticam “caça às bruxas”

    Por Diogo Martins e Flavia Lima | Do Rio e de São Paulo

    Besserman, ex-presidente do IBGE: credibilidade do instituto não está em xeque

    Funcionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) receberam mal a notícia de que parte do corpo técnico da instituição será alvo de investigação do governo, para apurar problemas na Pesquisa por Amostra de Domicílio (Pnad) 2013. Ontem, primeiro dia útil após a eclosão da crise, na sexta-feira, o clima era de perplexidade entre pesquisadores, sobretudo pela repercussão do caso na imprensa e pelo que entenderam como “uso eleitoral” dos candidatos ao Planalto, que comentaram a falha do IBGE.

    Um funcionário do instituto disse ao Valor, em condição de anonimato, que a segunda-feira foi “tensa” para os técnicos envolvidos na pesquisa. O servidor disse que, de modo geral, a interpretação do corpo técnico do IBGE que trabalha na Pnad é de que o governo, ao propor sindicâncias no instituto, tenta intervir na instituição para dar uma resposta política à sociedade, em momento eleitoral.

    A intenção do governo é criar duas sindicâncias. Uma será formada por especialistas independentes para avaliar a consistência da Pnad 2013. A segunda, composta por órgãos do governo, vai apurar as razões dos erros e responsabilidades funcionais. “A sensação é que o governo quer mostrar influência no IBGE. Querem mostrar eficiência num momento eleitoral, buscar um bode expiatório, mas os problemas foram de toda uma equipe. O mesmo dado passa pelas mãos de vários técnicos. Não tem um culpado.”

    O técnico descartou qualquer interferência do governo na mudança dos dados da Pnad. Depois de queixas de usuários, o IBGE informou que a amostra da Pnad 2013 usou erradamente projeção da população referente a todas as áreas metropolitanas. Após correção, indicadores da pesquisa foram alterados. Alguns índices melhoraram, outros não. “Não aconteceria se um estatístico não tivesse de trabalhar ao mesmo tempo em quatro pesquisas. Foi um erro bobo, mas estão tratando de uma forma como se tivéssemos roubado a Petrobras.”

    O sindicato dos funcionários do IBGE acredita que as sindicâncias têm razões eleitoreiras. “Estão tentando achar um culpado, fazer uma caça às bruxas”, afirmou Susana Drumond, diretora-executiva do sindicato. Curiosamente, a mesma expressão foi usada pela presidente do IBGE, Wasmália Bivar, na sexta-feira, quando se desculpou pelos erros da Pnad. Na ocasião, afirmou que agora não adianta promover uma “caça às bruxas”. Procurado, o Ministério do Planejamento informou em nota que a investigação “trata-se de procedimento administrativo destinado a apurar a existência de erro cometido na Pnad, considerado grave pelo próprio IBGE”.

    Procurado, o IBGE minimizou a instauração das sindicâncias. Por meio de sua assessoria de imprensa, o instituto disse que está “acostumado a trabalhar com comissões externas” e que está sempre pronto a ouvir sugestões de usuários. De fato, foi a disposição do instituto de ouvir as dúvidas de, dentre outros, uma economista de 26 anos, que abriu espaço para a revisão do erro com tanta rapidez.

    Sarah Bretones, há dois anos na equipe da MCM Consultores, notou uma inconsistência na Pnad ao olhar com mais atenção justamente os dados problemáticos, relativos às regiões metropolitanas. De olho em dados específicos do mercado de trabalho, a economista tentava aproximar os números da Pnad com outra pesquisa do IBGE, a Pesquisa Mensal de Emprego, cujo universo são as regiões metropolitanas. Aí veio a surpresa. “Embora as pesquisas sejam muito diferentes, a população ocupada e a PEA cresciam muito na Pnad, da ordem de 20% nas regiões metropolitanas, e isso não é normal de um ano para o outro”, diz Sarah.

    O contato com o IBGE foi feito na sexta pela manhã. Sarah diz que não demorou muito para encontrar a falha e reconhece ter ficado um pouco surpresa com o fato de o IBGE não ter identificado o erro antes. “Mas é algo que pode acontecer, pois quando se olhava para o agregado, os números estavam consistentes”, diz, ao ressaltar que não fez uma checagem dos dados. “Quando peguei as regiões metropolitanas, o erro estava bem ali, mas não sei se teria descoberto se não fizesse isso sempre”.

    A economista acredita que a falha não afeta a credibilidade do IBGE, pois o erro foi técnico e os microdados estão corretos. “Além disso, eles foram rápidos em identificar o erro, isso é importante.”

    Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE entre 1999 e 2003 e hoje na prefeitura do Rio, concorda e vai além. Segundo ele, como resultado de falha técnica, os erros sinalizam necessidade de mais investimentos. Ele diz ainda que não se lembra de um erro em uma variável chave para o debate atual dessa magnitude, mas pontua que, estatisticamente falando, sempre que há divulgação de grande quantidade de informação, há erratas.

    “Não sei se houve pressa, falta de recursos para a supervisão dos dados ou puramente azar”, afirma Besserman. Para ele, a admissão do erro e revisão dos dados não colocam em xeque a atuação do instituto. “A credibilidade do IBGE repousa em sua autonomia e em serviços prestados, que permitem a ocorrência de erros, mesmo quando muito graves como esse”. (Colaborou Edna Simão, de Brasília)

     

    Fonte: Valor Econômico

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