Metade da CUT declara guerra a Lula
SÃO PAULO
Foi a primeira grande manifestação contra o projeto que o governo levou ao Congresso. Na Assembléia Legislativa de São Paulo, os líderes definiram os termos de um documento que será entregue aos deputados e senadores. "Vamos à luta" é a palavra de ordem.
Os presidentes da CUT, Luiz Marinho, e da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, foram chamados de "superpelegos". As duas centrais, tachadas de "testas-de-ferro" do governo. "Querem instalar o monopólio da pelegagem", bradou o presidente da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e do Sindicato dos Eletricitários, Antônio Carlos dos Reis. "O consenso que o governo anuncia é uma farsa."
Os sindicalistas sustentam que a proposta não contempla os interesses dos trabalhadores e "constitui uma séria ameaça de retrocesso para o movimento sindical". O que mais inquieta os rebelados é que o projeto, preparado com base no relatório do Fórum Nacional do Trabalho, prevê a flexibilização de direitos e impõe a prevalência do que for negociado sobre o que está na lei.
Eles temem exclusão de atribuições dos sindicatos, que seriam transferidas às centrais, limitações do direito de greve, criação de sindicatos biônicos (sem representatividade comprovada) e restauração de "controle implacável" do Ministério do Trabalho.
O vice-presidente nacional da CUT, Wagner Gomes, metroviário e articulador do protesto, negou que o maior objetivo da banda que se opõe à reforma seja a manutenção do imposto sindical. "Isso não é verdade, defendemos o fim do imposto e que as contribuições sejam definidas em assembléia. Estão falando isso para desqualificar quem é contra o projeto", anotou Gomes, que faz parte da corrente sindical classista.
"Essa reforma acaba com a autonomia sindical", afirma "Salim". "Ficamos vulneráveis; o governo vai poder intervir nos sindicatos. Vamos ficar na mão do governo." Ele calcula que "mais de 70% dos sindicatos" são contra a reforma. "Lula está demonstrando que não é companheiro dos trabalhadores. Vamos fazê-lo relembrar das lutas de São Bernardo (no Grande ABC). Precisamos trazer o Lula de volta à rota correta. Querem nos enfraquecer, é aí que o bicho pega."
Para Dirceu Travesso, do Movimento Nacional de Oposição Bancária, Lula cometeu um "gesto de traição, é menino de recados do FMI (Fundo Monetário Internacional)".
Patrimônios
À tarde, Marinho reagiu à manifestação. "Superpelego? Essa coisa é engraçada. Faz 25 anos que o Lula foi cassado por conta dessa estrutura sindical que aí está, que cria grandes patrimônios. A maioria dos sindicatos não tem poder de negociação, não tem representação."
Para Marinho, "é contra-senso defender essa estrutura falida". Ele enfatizou: "Esses sindicatos sobrevivem, exclusivamente, da cobrança obrigatória do imposto. É isso que esses camaradas querem. Tem sindicato que cobra absurdos, querem manter a mamata. Eles têm medo do quê? Um monte de sindicato vai fechar mesmo porque não tem representatividade, esse é o fato."
– Metade da mais poderosa central de trabalhadores do País, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), declarou ontem grito de guerra contra a reforma sindical do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi acusado de "traidor" durante protesto do qual participaram dez integrantes da executiva nacional da entidade e presidentes de 50 sindicatos e federações. Tribuna da Imprensa – 3/3/2005

