Edição 76 - 01/08/2006

Aprendendo para a vida

Luiz Carlos Moreno – www.rh.com.br

Em geral, as pessoas diferem bastante na maneira como aprendem e na competência do seu aprendizado. Resiliência, se buscada no dicionário é definida como elasticidade. O conceito ampliou-se. Na aprendizagem significa:

* mais disposição de tentar;
* mais capacidade de detectar a avaliação de outras pessoas e mais inclinação para confiar nessa avaliação;
* mais coragem para explorar;
* mais desenvoltura, uma busca de novas maneiras de superar ou resolver um problema;
* uma atitude mais reflexiva em relação à sua própria aprendizagem.

À medida que aprende, está tornando-se também um aprendiz mais eficiente. Seu "aprender a aprender" segue uma espiral ascendente. A capacidade de "interpretar" corretamente as situações de aprendizagem, de saber quando explorar e quando se afastar, assim como a disposição de tolerar os sentimentos que acompanham a aprendizagem, estabelecem as bases da resiliência essencial.

Em um mundo veloz, que tecnologicamente muda a cada momento, onde as novidades e modificações se sucedem, enfim, num mundo incerto, a resiliência é uma qualidade vital que precisa ser estimulada, tanto em crianças quanto em adultos. E ainda, todos nós conhecemos alguém que acha que não tem mais nada a aprender! Os mais bem humorados diriam que estas pessoas "morreram e não se deitaram".

O fundamental é estar disposto a tentar – realizar algumas experiências pequenas, criteriosas, práticas – e ver o que acontece. Aprender mergulhando na experiência. Para outras pessoas, diferentemente, a aprendizagem pode ser de um tipo mais deliberado, analítico. A aprendizagem não é uma atividade homogênea: ela ocorre de muitas formas e dimensões diferentes. É um conceito muito mais amplo e mais rico do que é percebido nos atuais modelos de educação e treinamento. O modo como as pessoas comportam-se como aprendizes tem tanto a ver com o que elas acreditam quanto com as habilidades que dominam.

Estar vivo é estar aprendendo. A aprendizagem não é algo que fazemos às vezes, em locais especiais ou em alguns períodos da nossa vida. É parte da nossa natureza. Nós nascemos aprendizes.

Nós, seres humanos, temos o mais longo aprendizado de todas as criaturas, porque chegamos ao mundo com a competência para – e necessidade de – moldar nossas próprias mentes e hábitos, a fim de ajustá-los aos contornos deste mundo em que nos encontramos. A aprendizagem permite-nos prever o que combina com o que, o que vai acontecer em seguida, o que pode ocorrer se fizermos isso em vez de fazer aquilo. Portanto, a aprendizagem intervém no fluxo dos eventos para a nossa própria vantagem, de maneiras sempre mais sofisticadas e confiantes.

A aprendizagem não é fundamentalmente intelectual. O que acontece nas escolas e nas faculdades, por intermédio da instrução dos professores, dos livros e dos programas de computador, é apenas um tipo de aprendizagem, culturalmente local, historicamente recente e em geral, bastante singular.

A aprendizagem modifica não somente o nosso conhecimento e o nosso agir, mas também o nosso ser. A aprendizagem, ao longo da vida, não é uma exigência nova e especial, mas uma realidade antiqüíssima.

A sabedoria convencional tem tendido a assumir que o potencial de aprendizagem está "todo na mente": que a inteligência, como quer que a definamos, é algo individual, psicológico, capaz de se manifestar na ausência dos auxílios externos costumeiros.

Quando optamos por aprender, esperamos que os frutos da nossa exploração sejam conhecimento, domínio, recursos e alianças que nos auxiliarão em nossas agendas de vida – quaisquer que sejam elas.

Aprender é uma estratégia de sobrevivência que envolve riscos e promete retornos. Exige a capacidade de tolerar a frustração e a confusão; de agir sem saber o que vai acontecer; de enfrentar a incerteza sem ficar inseguro.

Aprender é em si, uma atividade intrinsecamente emocional. Daí a importância da resiliência e da competência para tolerar essas emoções. Mesmo quando a aprendizagem está transcorrendo tranqüilamente, há sempre a possibilidade de surpresa, confusão, frustração, desapontamento ou apreensão – assim como, é claro, de fascinação, absorção, alegria, terror ou alívio.

Aprender é freqüentemente difícil e demorado, confuso e frustrante. É necessário ser capaz de se dedicar a ela e de se recuperar dos reveses. Novos conhecimentos das bases biológicas da emoção mostram que nossos sentimentos são parte absolutamente integrante da nossa aprendizagem.

Na nossa época impaciente, é amplamente suposto que quanto mais rápido melhor – e que, se pudermos acelerar a aprendizagem, devemos fazê-lo. "Rápido" é largamente usado como sinônimo de brilhante ou inteligente, enquanto "lento", na linguagem da educação, é um eufemismo para obtuso. Todavia, a criatividade não pode ser apressada e, em geral, as formas mais profundas de aprendizagem requerem tempo para amadurecer.

A imaginação dos pais, dos professores de escolas e universidades e dos administradores pode libertar-se para se concentrar no processo de aprendizagem e no desenvolvimento das pessoas como aprendizes, em vez de ficar hipnotizada por "indicadores de desempenho" e qualificações.

Na sociedade moderna, deturpamos a natureza da inteligência supervalorizando apenas uma de suas formas. Essa crença tende a destruir a resiliência das pessoas diante da dificuldade de aprendizagem e a conduzi-las desnecessariamente a restringir suas opções de aprendizagem; até mesmo, talvez, a evitar ou fugir totalmente da aprendizagem.

O que você achou deste texto? Comente, se desejar, através do e-mail sinalrj@sinal.org.br .

Edições Anteriores RSS