Edição 14 - 04/02/2009

ENTREVISTA / DAVID FALCÃO

 

 

'Não houve desvio de função do Sinal'

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Emilton Rocha

 

Belém (PA) sediou, de 27 de janeiro a 1° de fevereiro, o 9º Fórum Social Mundial (FSM), que apresentou nessa edição o tema 'Um Novo Mundo É Possível.

 

Nesses seis dias, a capital do Pará assumiu o posto de centro da região para abrigar o encontro de ativistas de mais 150 países. Participaram também os presidentes Rafael Correa, Fernando Lugo, Evo Morales, Hugo Chaves e Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de 11 ministros. Algumas atividades foram realizadas em tendas temáticas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Federal Rural da Amazônia (UFRA). O Fórum Social Mundial nasceu no Brasil e agora se estende a quase todos os países da América do Sul e de outros continentes. Neste ano o FSM retornou ao Brasil.

 

Entre seus objetivos estão a construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas; livre de armas, especialmente nucleares. Luta pela ampliação e descolonização de conhecimento, cultura e comunicação; pela criação de um sistema compartilhado de conhecimento e saberes; e pela construção de economia democratizada, emancipatória, sustentável e solidária, com comércio ético e justo, centrada em todos os povos; e pela defesa da natureza como fonte de vida no planeta Terra.

 

O Sinal enviou alguns representantes ao FSM. Por causa disso foi alvo de críticas por parte de alguns filiados que escreveram nas redes internas que o sindicato estaria se desviando de suas funções, entre outros questionamentos. Até ontem, 70% dos que responderam à enquete postada no site eram contra a participação do sindicato no evento. Abaixo, David Falcão (foto), presidente do Sinal, fala sobre o que foi a participação da entidade no FSM.

 


Qual o objetivo principal do Sinal em participar do Fórum Social Mundial?

David FalcãoAntes de tudo, é importante lembrar que, apesar de ser um contraponto ao Fórum Econômico de Davos, inspirado em ideais clássicos da esquerda, o FSM congrega organizações representativas da sociedade civil e cidadãos comuns preocupados em melhorar o mundo. Não se trata, portanto, de um evento exclusivamente " de esquerda". O Sinal participou de todas as edições do FSM no Brasil, exceto no primeiro, em 2001.

 

Mostramos o que se faz no BC às diversas organizações da sociedade civil brasileira e de outros países que foram a Belém. Sem sectarismos e preconceitos, nem movidos por qualquer viés ideológico ou partidário, o que é vedado pelo nosso Estatuto (http://www.sinal.org.br/estatuto.asp), organizamos um Seminário, realizamos três oficinas, editamos um número especial da Revista Por Sinal, distribuímos farta literatura informativa e educativa aos participantes do FSM (cerca de 50 mil panfletos entre publicações do BC e do Sinal). Na edição 11 do Apito Brasil, divulgamos a nossa programação no FSM e, na edição 13, fizemos um amplo relatório da nossa participação no Fórum, sob o título "SINAL reafirma a excelência do funcionalismo do BACEN no Fórum Social Mundial".

 

Temos alertado às entidades parceiras em campanhas salariais recentes para o fato de que sempre que iniciamos uma mobilização por aumentos salariais, procuramos os meios de comunicação para dizer da nossa reconhecida qualificação profissional, da importância das nossas carreiras para o estado brasileiro, do nosso compromisso para com a sociedade, etc. Terminada a campanha, todos se recolhem – inclusive os discursos – até à próxima mobilização. O Sinal entende que discutir o papel do BC, ouvir a sociedade, mostrar o que se faz aqui pelo cidadão, fazer a crítica e propor mudanças, devem ser ações continuadas e responsáveis, a serem desenvolvidas em todos os fóruns onde a nossa voz puder ser ouvida, sempre movidas por deveres corporativos e também pela consciência social que deve permear a nossa responsabilidade como servidores públicos.

 

Na sua opinião, a participação do Sinal no FSM atendeu aos interesses dos filiados? (até 3ª feira à tarde, 70% dos que responderam à enquete no site do sindicato se manifestaram contra a participação do Sinal no evento)

 

David Falcão – Tenho a convicção de que sim, ainda que consideremos somente o aspecto utilitarista, corporativo da nossa atuação no FSM. Ao mostrar parte do bom trabalho do BC – como o atendimento ao público, as ações de sustentabilidade e o trabalho do MECIR – e do SINAL -, contribuímos para melhorar a imagem da instituição e de seus servidores e aproximá-los da sociedade. Nós, que estamos na linha de frente das lutas corporativas, sabemos o quanto atrapalha a péssima imagem que temos na sociedade e mesmo na classe política. O que parece ser um trabalho meramente social reveste-se, portanto, de um caráter corporativo também. Não podemos mais ir à sociedade e ao Congresso pedir aumento salarial de ano em ano sem mostrar a importância da nossa atuação.

 

A enquete do nosso portal não tem a pretensão de espelhar o que pensa a categoria ou a nossa base de filiados, senão o universo daqueles que acessaram à pesquisa, ou seja, não tem valor estatístico. Por outro lado, a enquete permite perceber o que pensa uma amostra, não aleatória, dos servidores do BC, que merece a atenção do SINAL.

 

Alguns filiados escreveram nas redes que a participação do sindicato no FSM é um desvio de função e que foi um desperdício das contribuições da categoria. O que você tem a responder sobre isso?

 

David FalcãoVamos por partes: onde houve "desvio de função" ou que dispositivo estatutário foi violado? Ao contrário, o artigo 3º do nosso Estatuto, coloca em destaque os seguintes objetivos: "zelar pela valorização dos seus filiados", "representar os integrantes da categoria profissional perante qualquer entidade, instituição e o Pode Público", "cooperar e estabelecer intercâmbio com entidades congêneres e afins", além de "promover estudos e debates sobre questões de caráter cultural, social ou econômico de interesse nacional".

 

A própria CLT, ao tratar da organização sindical, dispõe em seu artigo 514 que é dever do sindicato "colaborar com os poderes públicos no desenvolvimento da solidariedade social". Assim tem feito o Sinal ao levar a sua contribuição às audiências públicas no congresso nacional, ao realizar parceiras com entidades sindicais congêneres no interesse do serviço público, ao levar à imprensa e à justiça denuncias quando entende que o interesse dos seus representados e da sociedade foram afrontados.

 

Desde o ano passado, atendendo aos critérios de oportunidade, conveniência e de economicidade, decidimos realizar a primeira das três reuniões ordinárias do Conselho Nacional em Belém.

 

É importante registrar que, como reflexo do crescimento numérico e político do Sinal em Belém, aquela regional se organizou formalmente em 2008 e fez o convite para que o Conselho Nacional se reunisse lá pela primeira vez nos 20 anos de existência do Sinal Nacional.

 

Assim, o CN decidiu realizar a sua reunião física nos dois dias que antecederam a nossa participação no Fórum Social Mundial (26 e 27/01), tendo cumprido uma intensa agenda, que resumimos a seguir:

 

– discussão e deliberação sobre o relatório dos trabalho do GT, que levou à apreciação dos itens constantes do relatório do Grupo e da 22ª AND, passíveis de implementação no Regimento Interno do Sindicato;

 

– elaboração de escala, distribuição de atribuições e da carga de trabalho entre os Conselheiros durante a nossa participação no FSM;

 

– deliberação quanto à participação do Sinal no Programa de Qualidade de Vida no BC, envolvendo propostas de ações em "parceira BC/Sinal/Asbac" e elaboração de "projeto de educação financeira" entre o Sinal e a Unibacen, ambas para implementação em 2009;

 

– aprovação de proposta de calendário das eleições gerais do Sinal para o biênio 2009-2011;

 

– reestruturação do banco de dados do Sinal;

 

– ações judiciais em curso e a ajuizar, no interesse dos nossos filiados.

 

Juntando-se os dois eventos, a reunião do CN e a participação no FSM -, racionalizamos a utilização dos recursos financeiros com deslocamento de pessoas, ao tempo em que garantimos um efetivo mínimo para trabalhar no Fórum, reforçado com o apoio do Mecir e da GA de Belém, além de voluntários que, entendendo o alcance da iniciativa do Sinal, se apresentaram para o trabalho no FSM.

 

A presença do CN em Belém também se revestiu de um caráter simbólico, de apoio e solidariedade aos colegas daquela importante representação do BC, reafirmando o nosso compromisso de lutar pela continuidade daquela regional contra os riscos de extinção denunciados na Revista Por Sinal 16.

 

Ao final do evento, o que resultou de positivo e negativo pela participação do Sinal?

 

David Falcão  "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena", já dizia o poeta. Parodiando o lema do Fórum Social Mundial, mostramos que "um outro BC e uma outra forma de fazer sindicalismo com inteligência, trabalho e compromisso com o país, são possíveis". A única ressalva que fazemos diz respeito à organização do FSM, que deixou muito a desejar, mas não prejudicou os nossos trabalhos, diretamente.

 

Para que serviu a participação do sindicato do Fórum Social Mundial?

 

David Falcão – Para responder a esta pergunta, a melhor resposta é o depoimento de quem esteve lá, nas suas próprias palavras:

 

– José Nilton Tavares Nunes – Funcionário do Banco Central/Belém, há 31 anos.

"A participação no FSM foi bem proveitosa. Uma oportunidade de mostrar o que o BC faz para a população e divulgar nosso trabalho. Também foi muito boa a parceria com o Sinal Nacional no stand. Foi gratificante porque acredito que influenciamos no comportamento das pessoas.

Ouvi testemunhos de pessoas que não conheciam, por exemplo, os dispositivos de segurança das cédulas, a qualidade de nosso dinheiro, como pode ajudar para manter notas circulando com qualidade. As pessoas agradeciam, prometiam levar as informações para suas comunidades, levavam a cartilha. A parceria na oficina de compostagem foi muito boa e pode se repetir. Foi muito interessante ver o interesse e o respeito que a diretoria do Sinal tinha para com a comunidade. Parecia que eles estavam prestando contas à população do trabalho que fazemos no BC."

 

– Antônio Alves – Membro do Sinal Belém, funcionário do BC há 32 anos.

"Foi muito interessante mostrar às pessoas o trabalho de compostagem de notas, que antes iam para o lixo. A parceria com a Universidade Rural do Pará pode possibilitar que o BC contribua com 11 toneladas por mês de papel proveniente de notas, para que seja misturado a outros insumos e vire adubo. Essa é nossa contribuição para a qualidade de vida da população. É muito interessante. Também foi muito interessante o encontro entre colegas. Houve uma integração entre os que chegavam e o pessoal de Belém. O resultado final foi de muita parceria, muita integração."

 

– Roberta Afonso – Funcionária do BC há 2,5 anos.

"Participar do Fórum foi uma boa experiência. Estar com gente de todos os cantos, com propósitos tão interessantes. Foi muito produtivo. As palestras, com pessoas tão preparadas, acrescentaram muito ao nosso conhecimento e impressionavam as pessoas pelo conteúdo. A nossa participação no evento seguiu o propósito do Fórum, a discussão foi bem direcionada ao que se passava lá. O BC mostrou o que está fazendo pela sustentabilidade. Foi muito bom."

 

– Sérgio Albuquerque – Funcionário do BC há 35 anos. Proferiu uma palestra sobre "O papel do BC na sustentabilidade do FSH".

"Foi uma oportunidade maravilhosa do BC mostrar uma face pouco conhecida. Uma oportunidade maravilhosa que o Sinal deu para o BC se mostrar. Foi uma experiência muito rica encontrar com diversos tipos de pessoas, discutir assuntos, ouvir suas impressões. Tive a oportunidade de conversar com a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que chegou a se emocionar com o trabalho que o BC vem fazendo pela sustentabilidade. Foi ótimo trocar idéias e discutir como envolver mais o Banco Central nessas atividades. O evento promovido pelo Sinal pode ser uma grande alavanca para incluir ainda mais o BC nas discussões sobre a sustentabilidade."

 

– Elvira Cruvinel – Funcionária do Banco Central há 14 anos. Proferiu a palestra "Sustentabilidade, Banco Central e Sistema Financeiro".

"Foi uma excelente oportunidade para começar o debate sobre o BC e a sustentabilidade. Tinha muita gente na palestra. Colegas do BC, universitários, comunidade etc. Acho que esse foi o início das discussões do assunto dentro do BC. Agora, é importante aprofundar o assunto. A discussão precisa continuar. A questão da sustentabilidade e o Sistema Financeiro merece ser mais bem discutida."

 

– Johnny de Jesus Rayol Brito – Funcionário da empresa Paraíso, responsável pelo transporte de numerários.

"Trabalhei ajudando o pessoal do Sinal, dando apoio, e assisti à palestra sobre a reciclagem de notas de R$ 1,00. Não sabia que era possível transformar dinheiro velho em adubo. Foi muito bom aprender isso".
 

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