Edição 518 – 20.02.2026
VITRINE CULTURAL: RACISMO ESCANCARADO

O filme Dois Perfeitos Estranhos, premiado com o Oscar de melhor curta-metragem em 2021 e disponível na Netflix, é como um soco no estômago, pois mostra os efeitos psicológicos do racismo estrutural sobre as pessoas negras, que costumam enfrentar a desconfiança e a brutalidade policial, independentemente de seu comportamento ou de sua situação socioeconômica. O filme é um excelente contraponto ao mito de que os negros se vitimizam ao falar sobre as feridas causadas pelo racismo. A escritora e psicanalista Grada Kilomba alega que o trauma de pessoas negras provém principalmente do contato com a violenta barbaridade do mundo branco, que é a irracionalidade do racismo, que coloca o negro sempre como o “outro”, diferente, estranho e incomum. No final do filme, é feita uma homenagem a George Floyd, assassinado em maio de 2020 em Minneapolis – mesma cidade que tem resistido às ações do ICE – e a muitas outras vítimas da violência policial nos EUA. 
Lamentavelmente, parece que retrocedemos décadas no enfrentamento ao racismo, essa ferida aberta em toda a América, remanescente do nosso passado colonial escravista. Foi mais do que repugnante a postagem recente do presidente Trump, que mostrou uma videomontagem na qual o casal Obama aparecia como uma dupla de macacos. Apesar de ter sido posteriormente apagado pelo governo estadunidense, o vídeo evidenciou um racismo escancarado e sem limites, cúmulo de uma tendência que temos presenciado na última década. A ascensão de líderes racistas de extrema direita fomenta discursos de ódio em redes sociais, estimulando o aumento das ofensas racistas e da violência policial, tanto nos EUA como aqui no Brasil.
Para conhecer melhor a história de luta dos negros por seus direitos civis nos EUA, um filme muito interessante é Malcolm X, do diretor Spike Lee, disponível no Prime Video. Estrelado por Denzel Washington, indicado ao Oscar de melhor ator em 1993 por sua brilhante atuação, o filme retrata toda a trajetória de vida desse importante líder negro, desde sua infância, marcada pela desestruturação familiar após a morte de seu pai. Mostra sua juventude no Harlem de Nova Iorque, a entrada na criminalidade, prisão e posterior conversão ao islamismo, quando passa a exercer um intenso ativismo político, tragicamente interrompido por seu assassinato em 1965.

O filme inicia com um discurso poderoso de Malcolm X, no qual ele afirma que os afro-americanos nunca se beneficiaram da riqueza dos EUA, que ajudaram a construir: “Nunca vimos democracia, nós só vimos hipocrisia. Não vemos nenhum sonho americano, só vivenciamos o pesadelo americano”. Pode-se discordar da sua forma de combate, mais beligerante do que a do contemporâneo Martin Luther King Jr., mas não do seu perfeito diagnóstico que, de uma certa maneira, prevalece até hoje, já que ainda é preciso dizer que Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).
Simone é servidora aposentada do Banco Central do Brasil e Conselheira Regional do Sinal-RJ.
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
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