VITRINE CULTURAL TEM NOVIDADE NO APITO CARIOCA: VITRINE CULTURAL, DA COLEGA SIMONE DAUMAS


A ameaça permanente do fascismo
Em tempos de notícias chocantes que nos assombram em pleno século XXI, vale muito a pena assistir à série Mussolini, O Filho do Século, baseada no romance do autor italiano Antonio Scurati, disponível no serviço de streaming MUBI. A série de oito episódios cobre o período de ascensão do fascismo, desde 1919 até o início de 1925.

É impressionante ver como Mussolini passa de militante socialista e editor do jornal Avanti!, do Partido Socialista Italiano, a líder da milícia Fasci di Combattimento, embrião do Partido Nacional Fascista, que iria combater violentamente lideranças e simpatizantes socialistas, aterrorizando o povo italiano. Maquiavelicamente oportunista e manipulador, com um discurso virulento ele consegue arregimentar dezenas de frustrados veteranos da Primeira Guerra Mundial para formar sua temida milícia: os Camisas Negras.
Mussolini conquistou rapidamente a adesão de mais homens, formando um verdadeiro exército paramilitar. Foi eleito deputado com o apoio financeiro da burguesia capitalista, que o enxergou como aliado no combate aos socialistas e comunistas, “onda vermelha” que vinha ganhando força na Europa, em profunda crise econômica do pós-guerra. Tornou-se primeiro-ministro em 1922, após instigar sua milícia fascista a marchar até Roma para tomar o poder e, em seguida, chantagear o rei Vítor Emanuel III. O regime autocrático que o Duce (líder, em italiano) impôs à Itália por mais de duas décadas e o desfecho trágico dessa história são conhecidos.
A rápida ascensão do ditador italiano é explicada pela psicologia social. Gustave Le Bon já havia teorizado sobre o fenômeno em seu célebre livro Psicologia das multidões, de 1895. Le Bon sugere que uma multidão forma um grupo coeso, no qual a individualidade de cada pessoa é apagada em prol de um inconsciente coletivo que surge a partir de três fatores: anonimato, sugestionabilidade e contágio. No meio de uma multidão, desaparece o sentimento de responsabilidade individual e os instintos violentos afloram sem repressão. Os indivíduos tornam-se facilmente influenciáveis pelas sugestões de um líder forte. A multidão passa, então, a pensar e agir como um grupo homogêneo, obedecendo cegamente às suas ordens, tal qual um cardume.
É impossível não reconhecer semelhanças com os líderes da extrema direita que ascenderam na última década no Brasil e no mundo. Vimos o ressurgimento sem pudor da ideologia fascista, com seu método e suas táticas: o discurso nacionalista, a escolha de um grupo social como inimigo, a propagação do ódio, a difusão escancarada de mentiras, a propaganda massiva do regime, o desprezo pelas instituições democráticas, o culto ao líder, o incentivo à ação violenta, a crua vilania, enfim, para a obtenção e a manutenção do poder.
Escapamos de um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, que pretendia instaurar uma ditadura militar, cujo plano incluía o assassinato do presidente eleito, de seu vice e de um ministro do STF. É surpreendente que uma parcela considerável da população brasileira e do Congresso Nacional ainda defenda impunidade para os líderes golpistas e seus fiéis seguidores.
Agora, assistimos perplexos a um processo de rápida deterioração da tão proclamada democracia estadunidense. Agentes mascarados do ICE assemelham-se aos Camisas Negras, quando atacam os inimigos da vez: imigrantes, ilegais ou não, e cidadãos americanos que protestam em sua defesa. Enquanto a população se assusta com suas ações truculentas e criminosas, Donald Trump os defende com mentiras inacreditáveis.
Quando o presidente da maior potência nuclear declara que o direito internacional não serve para nada e que somente a sua moralidade (ela existe?) seria freio para suas tresloucadas ações e intenções de expansão territorial, o mundo inteiro está sob grave ameaça. A História está aí para nos ensinar. A humanidade resistirá?
A coluna expressa opiniões da autora e não reflete necessariamente o posicionamento do Sinal-RJ.
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